Clara – O Final

Český Krumlov, República Tcheca. (ph: Flavia K Cabral/ abril, 2012)

Disseram-na que Clara esta numa colina próxima dali, debaixo de uma imensa árvore. Viram-na ali pela última vez, disseram.

- Mas será que ela estaria ali ainda?

- Provavelmente. Não parecia que iria a outro lugar.

O caminho era longo, mas tranquilo. Niko ansiava pelo momento de reencontrar Clara e passava tanta coisa em sua cabeça que nem sentiu a distância. Parou diante de um cercado que abrigava um montante de árvores tão denso que não conseguia enxergar o lado de dentro. Acompanhou o alto cercado preto até achar a entrada, um portão de decoração art nouveau preto com detalhes dourados. Abriu-o devagar, ouviu um incômodo ranger. Sentiu um gelo na espinha – mau presságio, diriam.

Poucos passos e o denso bosque abria-se em uma pequena clareira. No meio, uma única árvore de cerejeira, estranhamente florida para aquela época do ano. Ao pé, havia uma pedra de cor quase azulada que cercava-se por coloridas flores. Um forma humana estava deitada naquele platô. Ao aproximar-se, percebeu: era Clara, mãos cruzadas na altura do coração, com um lindo vestido azul claro e semblante pacífico. Tocou-lhe o rosto, estava gélida, pálida. Niko nunca tinha visto Clara assim, tão sem vida. Descruzou-lhe os braços, balançou-a devagar, depois mais forte e mais forte. Clara não respondia, Clara jazia.

Não conseguia acreditar no que via. Gritou de desespero com Clara aos seus braços, lágrimas que escorriam de seus olhos molhavam o vestido azul. Era uma cena desesperadora, digna de filmes de guerra. Após um longo soluço, Niko abraçou forte aquele corpo, na esperança de transmitir um pouco de sua vida a ela (naquele momento, nada parecia tão importante como trazê-la de volta). Mas Clara não esboçava reação, não abria os olhos. Largou-a delicadamente, parecia pesar 120 quilos agora. Escorregou ao lado do platô, sentando-se expremida e amassando algumas flores. Ficou ali sentindo-se o ser mais impotente e imbecil do universo.

Não era religiosa, mas orou e pediu para todos os deuses e santos que vinham em sua cabeça, das mais diferentes crenças, que trouxessem Clara de volta. Suplicou por horas, baixinho, atolada em seus joelhos… Não percebeu quando entrou no mundo dos sonhos.

Em Clara abriu-se um pequeno buraco, bem na altura no coração. Um buraco vermelho vivo, que emanava uma luz azulada, como um raio. Niko tentou ver lá dentro, mas nada enxergou. Colocou uma mão sob a outra e tapou-o completamente, a luz escapava-lhe pelos dedos. Aos ouvidos de Clara, enconstou os lábios e, como se quisesse soltar um feitiço, falou:

- Volte a vida, minha querida, faço qualquer coisa que quiser. Ando com você pelo mundo o quanto desejar, volte por favor.

Nada aconteceu.

Niko, que continuava a tapar aquele buraco com as mãos, sentiu uma espécie de força sugá-la para dentro. Assustou-se e, num impulso, retirou as mãos rapidamente. A luz que escapava pelo buraco ficou ainda mais forte. Imaginou que poderia ser a alma de Clara escapando por ali e, para evitar que isso acontecesse, tapou-o novamente o mais forte que podia. Então, foi completamente sugada pelo buraco, de uma vez só.

Nesse exato momento, Niko acordou. Abriu o olhos, mexeu os braços, esfregou os olhos. Não lembrava de ter se deitado. Sua visão desembaçou, viu um pedaço de céu azul e flores de cerejeira. Olhou as mãos, não reconheceu-as como suas. Olhou para seu corpo, estava com um lindo vestido azul claro. Levantou-se do platô. Encostou os pés no chão, pés de Clara. Sentindo a relva, espreguiçou-se com prazer e  partiu contente a viver. Duas almas livres, um só corpo compartilhado.

Clara – Capítulo 9 (o penúltimo)

MoMa, New York City (ph: Flavia K Cabral/ dezembro, 2009)

As primeiras coisas que Niko sentiu ao sair pela porta foram o calor do sol em todo seu corpo, o ar puro e livre e o vento. Este último, de maneira completamente estranha, passava até por entre os dedos de suas mãos e balançava livremente os fios dos seus cabelos. Ouviu o tilintar de seus brincos levamente, sentiu as extremidades do seu corpo esfriarem. No dia que Clara contara sobre o vento, imaginava que a sensação fosse despertar algum tipo de dor. Mas agora que vivia-o de verdade, percebeu-se em quase torpor de tão incrível que era simplesmente sentí-lo (como poderia algo que tocava sem permissão seu corpo inteiro ser tão bom?).

Estranhou a textura do chão lá de fora, esverdeado e desregular. Ao pisar, sentia um leve incômodo, mas teve certeza que se acostumaria aos poucos. Sorriu. Era realmente muito bom estar lá fora. Lembrou dos olhos de Clara; queria celebrar este momento com ela, contá-la de seus sentimento (como é lindo tudo isso aqui, né?), abraçá-la forte e agradecê-la por a ter levado lá fora. Sentiu um aperto no coração tão grande que todo aquele momento tornou-se triste. Se tivesse feito isso antes, talvez Clara não teria ido embora. Talvez agora estariam juntas, em qualquer outro lugar, ou ali mesmo. Mas a vida não é tão simples, as escolhas passam e, asnos e pasmos, não percebemos quando elas simplesmente se vão. Parece que as chances entram em trens e partem adiante, tornam-se de outras pessoas, desaparecem ou morrem. Era mais ou menos isso que Niko sentia – o que doia bastante, a ponto de não ser plena vivendo essas novas experiências.

Virou-se para trás e viu a porta por qual saiu. O que faria agora? Tinha uma paisagem inteira para percorrer, sentindo-se sozinha e perdida. Mas estava decidida a rever Clara, nem que fosse para despedir-se. Olhou para os dois lados, escolheu a direita e partiu.

Andou por aí pelos planos, subiu algumas colinas, viu tanta coisa diferente. Experimentou novos sabores, viu novas cores, ouviu sons e músicas que Clara tanto gostava. Conheceu pessoas interessantes, emendou algumas conversas válidas, mas nunca tão belas e profundas. A cada coisa nova que conhecia, valorizava mais os momentos que passou com a menina que escancarou seus planos. A cada esquina que dobrava, lembrava-se disso. Primeiro com dor, depois com uma espécie de alegria e gratidão por ter vivido de forma tão simples um amor.

Realmente estava vivendo muita coisa. Sentimentos bons e ruins que se misturavam como guachê. E, como guachê, encontravam-se vestígios do que tinha sido aquela cor, mas logo transformavam-se em outra coisa. Era realmente difícil o mundo lá fora, havia muita dor, porém era belo e perfeito em seus defeitos. Talvez, os mais desentendidos ou menos despertos, opinassem que o melhor seria permanecer dentro de casa, protegida. Niko, contudo, percebia que essas pessoas simplesmente não tinham imaginação ou visão. Viver naquela prisão já não era possibilidade, por mais que fosse o mais seguro a se fazer. Agora, na realidade, já não ligava para manter-se racional, queria sentir de tudo.

Virou numa rua de paralelepípedos enormes, casinhas coloridas margeavam-na. Escolheu a mais avermelhada e entrou. Não conseguiu conter a felicidade quando finalmente encontrou o destino de Clara.

Clara – Cap 8.

Petit Palace, Versailles. (ph: Flavia K Cabral/abril 2012)

Quando percebeu que Clara não voltaria, Niko foi tomada por uma tristeza que fazia anos que não sentia (aliás, já tinha sentido isso alguma vez?). Pensava em como era fácil amar quando existe a concretude do olhar, do tocar e do sentir ao vivo. Descobriu o quanto dói saber que todos aqueles momentos não se repetirão jamais. Não entendia direito porque isso acontecia, não sabia explicar porque agora e, nesse momento, arrependia-se de não ter saído com Clara. Porque agora dar um passo para a fora segurando aquela mão parecia tão mais fácil do que não vê-la nunca mais.

Mas Niko decidiu que voltaria a ser feliz na vida que tinha antes. Sentou no chão, na escuridão. Abraçou suas pernas e encarou o quadrado amarelado. As pernas formavam um X, cobrindo-lhe os seios; a cabeça pendia no joelho direito, os cabelos soltos e lisos quase tocavam o chão. O olhar vagava pelos contornos do quadrado. Foi só então que ela se deu conta de como era pequeno aquele espaço, era sufocante (como poderia ter se considerado feliz ali?).

Lembrou do dia que Clara a achou. Parecia tão distante no tempo e no espaço. Percebeu que, aos poucos, sua memória pregava-lhe peças e sumia com momentos e frases importantes que tinha prometido a si mesma e a Clara nunca esquecer. E viu que não adiantava esforçar-se para lembrar, estava aos poucos esquecendo. Perguntou-se porque não tinha escrito tudo o que Clara disse a ela… Arrependeu-se novamente. Não poderia esquecer. Esticou a perna esquerda e colocou o pé no quadradado amarelado e, ao sentir o calor do sol na pele, chorou copiosamente. Chorou de saudade, por ter sido abandonada, por ter sido medrosa, por estar esquecendo, por si mesma e por Clara.

Tentou chamá-la baixinho. Mas aquela conexão que um dia foi tão forte já não existia mais. Antes, ao chamá-la, sentia a resposta, como se existisse um canal exclusivo que não fosse desse mundo, que fosse além de tudo aquilo que conhecia como humano (como poderia ela criar algo assim com alguém que conhecia há tão pouco tempo?). Mas naquele dia não, nada vinha, nada.

O silêncio da casa a incomodava, talvez isso fosse o que mais cortasse seu coração. Entrava no banho e passava minutos (ou horas) sentada no chão, sentindo a água tocar no seu corpo e as lágrimas escorrerem no seu rosto. Pensava que Clara tinha cansado de tudo aquilo. Na verdade, achava ela uma filha da puta e covarde por ter ido embora sem falar nada. Passou a considerar que aquela mulher era, na verdade, doente: ansiosa, impaciente e egoísta. Ela não entendia o próximo e só pensava em si mesma, em satisfazer-se, no prazer que tinha de atormentar a vida dos outros, em deixar feridas abertas e sangrando por aí sem olhar para trás. Porque, na realidade, Clara tinha necessidade de ser lembrada e fazia isso pela dor e não pela alegria, porque a alegria pressupõe responsabilidade; dor é descaso. Vaca, filha da puta, desumana.

Socou o chão uma, duas, três vezes, até sentir o sangue escoar em suas mãos. Olhou-se no espelho, bem dentro de seus olhos, e socou-o com raiva. Ajoelhou-se, espremeu-se, deitou-se, chorou-se e dormiu. Dormiu por dias. Acordava de vez enquando para chorar. Um dia, levantou-se, decidida a sair dali e procurar por Clara, pedir para ela voltar. Vestiu-se bela, arrumou os cabelo e foi até a porta. Parou por um instante diante da luz, respirou fundo e deu o primeiro passo.

 

 

Clara – Cap 7

Copenhage, Dinamarca (ph: Flavia K Cabral/ Março, 2012)

- Eu não posso te prometer nada. Não sei nem o que vou comer pela manhã, quanto mais garantir qualquer coisa a você; disse Clara.

- Você é completamente louca. Não posso sair por essa porta sem garantias de que você não vai largar minha mão.

- Eu não vou largar da sua mão.

- Mas por quanto tempo você irá segurá-la?

- Isso eu não posso dizer.Um mês, seis meses, um ano, dez anos… Não tenho como saber. Não posso te prometer nada. Não consigo, ao menos, dar-te a segurança de que o mundo lá fora é melhor para você do que esse aqui dentro. Minha vida não funciona desse jeito, não faço planos, não vivo roteiros. Se você decidir sair, vai ter que ser por si própria e porque você quer isso.

- Não posso sair ainda…

- Eu não vou conseguir esperar muito mais…

- Eu sei.

Os dias passaram-se mais ou menos do mesmo jeito. Clara vinha, Niko ouvia, Clara ía embora, Niko sentia falta. As visitas iam ficando mais frequentes, tomavam mais tempo. E Clara sempre pensando em maneiras de tirar Niko de lá – com palavras, com músicas e com gestos… Tentou de tantas maneiras que estava ficando cansada, muito cansada. Toda essa história tinha transformado-a. Continuava alegre e rindo de tudo, mas perdera parte da leveza. Ainda andava por aí saltitante, mas pensava em Niko o tempo todo. Seu semblante ainda transmitia paz, mas seus olhos, para bom observador, estavam tristes. Clara já não comia direito e fumava demais, um cigarro atrás do outro. E pegou a péssima mania de embebedar-se sempre que podia para tentar esquecer um pouco do que estava acontecendo. Mas, quando visitava Niko, tudo que vivia lá fora parecia menor e pensava que todo esse sentimento fazia parte do processo de deixar Niko fazer parte da sua vida. Estava engana. Niko não sairia dali, não tinha intenção disso, por mais que quisesse sair quando Clara estava ao seu lado.

Um dia Clara ficou 24 horas inteiras e foi intensamente feliz. As duas foram íntimas por todas essas horas, cúmplices daquele dia. Mas Clara foi embora e não voltou no dia seguinte. E nem no outro, e nem no outro… Clara nunca mais voltaria.

Clara – Cap 6

Montmartre, Paris (ph: Flavia K Cabral/ Março, 2011)

 

Niko sentiu um desespero sem igual ao olhar pra fora. De tanto, empurrou Clara para o lado com tamanha força que ela caiu no chão. Machucou-se, obviamente, mas Niko simplesmente não percebeu. Já havia corrido com a destreza de um gato que foge do perigo para o seu quadrado de luz. E lá ficou. Clara levantou-se e olhou aquela cena patética. Irritou-se profundamente, parecia que uma onda invadira seu corpo, atingindo sua mente como água, água de ódio (se  Niko tivesse conseguido reparar nos olhos que a encaravam, de certo sentiria medo).  Mas Clara respirou fundo algumas vezes, abraçou Niko e foi embora. Não falou uma palavra, apenas virou as costas e foi-se.

Niko ficou ainda mais desesperada. Pensou na possibilidade de Clara nunca mais voltar. Parecia uma barata tonta de tantas vezes que foi até a porta e voltou ao quarto.  Não conseguiu avançar, o medo era maior. Voltou para seu quarto e ficou lá, insone, esperando o dia clarear. Pensava em todas as coisas que poderia ter falado, pensava que poderia ter simplesmente conseguido sair pela porta. Se arrependeu, estava triste, mas não chorava. A dor era forte, mas não chorou.

Clara andava devagar, esperando Niko vir atrás. Quando percebeu que não vinha, foi viver o mundo. Foi fazer as coisas que sempre fazia, andou por aí, tocou em flores, sentiu o perfume do mundo, falou com pessoas, ouviu músicas, viu filmes, leu. Mas não conseguiu tirar Niko da cabeça. “Maldita”, pensava. Deveria ter previsto que ela não sairia daquela vidinha ridícula. E, como tinha cansado um pouco de pensar, simplesmente deixou o assunto de lado.

Niko entrou no banho. A água do chuveiro, ao tocar em seu corpo, parecia machucá-la. Os pingos pareciam cortar sua pele e ela sentia cada pelo do seu corpo arrepiar-se. Pensou: “Bem que Clara poderia ficar aqui simplesmente, comigo, na minha segurança.” Mas sabia que não poderia pedir isso, ela era um pássaro e o pensamento de deixá-la presa parecia injusto e, acima de tudo, feio. “Ou, quem sabe, continuar do jeito que estava. Estava bom, não estava? Pelo menos aceitável. Por que ela simplesmente não aceita as coisas como são?”

De repente, Clara voltava a pensar em Niko. Culpava Niko de tê-la iludido, culpava-a de a ter feito acreditar que, algum dia, sairia pela porta – e talvez tivesse saído, se não tivesse sido pressionado tão cedo. Clara sabia o que queria: queria levar Niko com ela. Até considerou mudar-se para lá, mas sabia que não conseguiria viver seus dias num pequeno quadrado de luz.

Dias passaram-se. Clara não conseguiu conter-se e resolveu voltar! Niko a esperava encolhida no escuro do quarto, fugindo da luz. Cobria o rosto com os belos cabelos pretos. Quando percebeu Clara, olhou para cima:

- Por que você demorou tanto?

E saiu de seu canto para abraçá-la.

 

Clara – Cap 5

Notre Dame Garden, Paris (ph: Flavia K Cabral/ abril, 2012)

Não era só Niko que estava se envolvendo. Clara, que nunca se importara muito com outras pessoas, sentia uma vontade quase benfeitora de tirar Niko dali, de mostrar a ela o mundo que conhecera e explorara tanto. De vê-la sentir pela primeira vez o calor do sol no corpo inteiro, o vento nos cabelos e o perfume de relva pela manhã. Queria correr, puxando Niko pelas mãos, levando-a a lugares que nenhuma das duas esteve. Queria pegar todos os membros do seu corpo e esticá-los, estendê-los ao infinito, até Niko parar de se encolher e não querer voltar a fazê-lo nunca mais. Queria libertá-la, acordá-la pra vida – estava encantada pela inocência, por aquele olhar meigo, pela melancolia bela. E, pela primeira vez, a perspectiva de ensinar uma pessoa a viver livremente a animava.

Clara saía de lá em devaneios. Bolava planos para fazer com que Niko parasse de se protejer. E entrava num jogo de sedução na sua cabeça, pensava em palavras que pudessem tirar Niko daquele marasmo que a irritava, em histórias que transmitiam o que era a vida, em gestos que poderiam dar-lhe mais segurança e confiança. Mas Niko era complicada, relutava muito e tinha medo. Medo de cair, de se queimar, de não ser aceita lá fora. Tinha medo de sentir frio, de sentir calor, de sair da amenidade e do conforto, de andar descalça, de pisar no caco.

Clara detestava esse medo de viver da Niko. Seu grande desejo era vê-la desabrochar, libertá-la do que ela achava ser uma prisão. Mas Niko não se sentia presa. Na maior parte do tempo, sentia-se segura, protegida de dores que sabia que não queria sentir. Nunca havia pensado em sair, mas agora que considerava, obviamente sentiria medo – é difícil largar a segurança pelo que considerava incerto (toda mudança gera o pensamento do completo erro e de que a probabilidade de queda é grande). E o que mais a apavorava era ter a quase certeza de que Clara iria deixá-la a vagar sozinha, perdida, sem chão. Que, depois que conseguisse o que queria e a empurrasse porta a fora, ela simplesmente soltaria a sua mão naquele mundo enorme que não conhecia e Niko ficaria abandonada, sozinha, sem saber como voltar para a segurança de seus dias parcialmente e limitadamente iluminados. Niko se desesperava só de imaginar isso acontecendo. E via, em sua mente, as gargalhadas que Clara daria ao contar para os outros, porque Niko sempre tendia a pensar no pior.

Havia decidido que não sairia dali, não percebera que já era tarde demais. Clara já invadira sua vida e contara tudo o que tinha lá fora. Não percebia que, ao imaginar-se vivendo aquele mundo, já havia mudado para lá. Ela não viu que Clara já havia tornado tudo o que um dia ela achou maravilhoso em algo insoço. E que somente a ideia de sair dali já a contaminara por inteira, mesmo com sua insistente negação diária.

Um dia, Clara empurrou-a a força até a porta.

Clara – Cap. 4

Lennon's Wall

Lennon’s Wall, Praga. (ph: Flavia K Cabral, abril/2012)

Clara visitava-a duas vezes por semana há algum tempo já, mas ainda não sabia seu nome – nunca tinha perguntado a ela e, por isso, ela nunca tinha falado. Referia-se a ela como “linda”, “baby” e “ei” ou “ou”. De vez enquando soltava um “garota”, o que deixava-a meio brava (e quando isso acontecia, emburrava a cara como uma criança e sorria logo após).

Ela chamava-se Niko. Tinha belos cabelos, enormes, lisos e pretos como nanquim. Um rosto pequeno, que ela achava que se parecia com um rato, e era magra, muito magra, seus ossos apareciam em todas as partes do corpo. Aliás, sempre achou que nunca alguém poderia achá-la interessante – Clara muito menos, deveria achá-la um monstro. Os olhos, o que chamava mais atenção, eram pretos como duas jaboticabas perfeitas e brilhavam daquele mesmo jeito de quando derretemos o açúcar para virar caramelo – eram belos olhos negros.

Niko ouvia atentamente o que Clara dizia, imaginando cada objeto, pessoa, situação, paisagem. Às vezes, não ouvia nada. Ficava hiponotisada ao ver seus lábios em movimento e mergulhava em montes de sentimentos e pensamentos que julgava ser errados. Niko nunca tinha sentido algo assim antes, por ninguém, especialmente por uma mulher. Estava se achando suja. Tomava banho três vezes ao dia para limpar-se. Tentava reconfortar-se na raiva que havia sentido de Clara um dia e em todas as histórias que se opunham ao que Niko gostaria que ela fosse.

Numa terça, Clara falava do quanto estava feliz por fazer planos para viajar no futuro. Visitaria um lugar que nunca tinha ido e a perspectiva disso deixava-a estonteante. Niko parecia conseguir ver seu corpo emanando pequenos faixos rosas de felicidade pelo poros daquela pele leitosa. Ela estava ainda mais radiante do que nos outros dias, ainda mais bela.

Então, Niko distraiu-se em pensamentos e não ouvia mais nada, só conseguia ver Clara em movimento, suas mãos, expressões e lábios, e seus olhos brilhando. Ela sentiu uma vontade súbita de tocá-la de alguma forma, no braço, na mão. Na realidade, queria abraçá-la e, por não conseguir por algum motivo mais forte que ela, tinha raiva. Parecia estar travada pela perspectiva de apenas chegar um pouco mais perto dela. Aliás, o que tubilhava dentro dela era uma mistura de sentimentos: ódio, desejo e algo que ainda não sabia o nome – ou não queria nomear.

Impulsivamente, Niko saiu da inércia e tocou levemente o braço de Clara enquanto falava. Se arrependeu no minuto seguinte, com medo dela não gostar. Mas Clara não se importou, continuou a falar toda empolgada de seus planos. Niko abriu o maior sorriso do mundo que podia dar naquele dia.

- O que foi? Parece feliz. – disse Clara.

- Eu estou feliz de você estar aqui nesse exato minuto!

- Que bom, eu também estou feliz de estar aqui, agora – e continuou a falar.

Nesse dia, Niko não conseguiu dormir. Repetia aquele momento mil vezes na cabeça, com medo que pudesse esquecer.