A morte das coisas vivas

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Há tempos, tive uma conversa com uma amiga. Ela, uma mulher inteligente e bem resolvida, me explicou que a única maneira de acabar com alguma coisa que incomoda é matar a causa deste sentimento. Claro que o matar no sentido figurado.

Desde então, tenho inventado as mais diferentes mortes às causas de minhas tristezas. Por mais mórbido que pareça, a técnica, surpreendentemente, ajuda a superar coisas inimagináveis. Já matei falsas amigas enforcadas, doenças queimadas e pensamentos afogados. Já torturei cruelmente amores passados, empurrei da escada caminhos desviado e atirei em catástrofes naturais.

Segue, então, na íntegra, mais uma das tantas mortes que forjei em meus pensamentos.

Por mais que insistisse em não ver, a coisa insistia em escancarar-se em minha frente. Silencioso, ele foi tomando proporções tão grandes que não consegui entender como ninguém perceber. Assustador, assustador.

De uma hora para outra, ele me tomou a cabeça de tal forma que não consegui pensar ou fazer mais nada. Isso durou longos dias que, hoje, parecem meses. Tentei fugir, tentei esquecer, mas não adiantava. Quanto mais corria, mais me alcançava. Quanto mais seguia, mais me aproximava.

Foi então que virei e o encarei com medo, mas de frente. E a coisa era horrenda, horrenda. Um tremor me tomou dos pés a cabeça e, quase sem forças – estava sem comer a dias – tomei coragem de atacar.

Com um bisturi que achei em qualquer lugar que não recordo, esmurrei, cortei, rasguei, odiei e gritei. A coisa gritou, esperneou, insistiu e sangrou. Muito. A luta, acirrada, quase foi perdida por mim. Entretanto, com uma força vinda de algum lugar que não conheço, bati, rasguei e cortei-o em mais de mil pedaços. Despedacei-o gritando, chorando, suando, em desespero e lotada, lotada do sangue que saía daquele troço. E, a cada gota do fluído vermelho que lhe lotava as veias e me sujava a cara, minha raiva e força cresciam. Tanta raiva, tanta raiva… Tanto medo, tanto medo…

Foi, então, que parou. Não se mexia mais. Cutuquei e cutuquei de novo. Nada, nem uma reação. Então soube, tinha derrotado aquela deformidade assustadora. Olhei para os lados e vi que não estava sozinha. Comigo, me dando forças, estavam meu pai, minha mãe, minhas irmãs, meus tios, meu primo, um amigo, meu noivo e Deus. Todos unidos para derrotar aquilo que mais odiei até então – e provavelmente o que mais vou odiar –, o câncer que meu pai teve.

Até hoje, ele assombra, mesmo depois de sua morte. Até hoje temo sua volta, mas tenho fé em Deus que tudo não passou dos dias que ficaram para trás.

Para acompanhar: Que tal um Bravo, sem açúcar ou adoçante?

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