Sobre política

Acho irritante (e engraçado) quando ouço pessoas que, sem perceber, pronunciam discursos repetitivos, cheios de ideologias preconceituosas (e quase sempre arrogantes). Geralmente são pessoas da “elite privilegiada” (lê-se graduados, proprietários de carro e casa e com salário maoir do que de 70% da população) que, na tentativa de defender as classes C, D, E, F, e mostrar-se corretos, acabam falando enormes besteiras. E, no final, sempre apontam o Estado como responsável pela discrepância social. Quem nunca ouviu: “o governo não dá escola, não dá a educação necessária, por isso a classe mais baixa não entende a sociedade, não entende política. Por isso, as pessoas não sabem votar e não cobram. Não se interessam pelos governantes”.

Reconheço que, realmente, o governo não investe em educação, que as escolas públicas são horríveis e que existem crianças na 5ª série que ainda não sabem ler. É óbvio e é fato. Contudo, analisando cuidadosamente a fala, é possível perceber pontas de preconceitos esparramadas em todas letras.

Desde o surgimento do homo-sapiens, o homem consegue desenvolver uma linha de raciocínio lógico – mesmo que primitivo. (“Se eu bater essa pedra desse jeito e prendê-la a ponta de um galho, talvez eu possa fazer alguma arma para matar aquele búfalo apetitoso que me enche o saco). O raciocínio desenvolveu-se e criou sociedades, Estados, teorias, economias e a política. Supõe-se, então, que qualquer pessoa normal consiga construir linhas de raciocínio sem a necessidade de manuais de redação, livros de geografia e apostilas de física. Mesmo que o pensamento seja fora do comum do que é passado pela sociedade – o que não anula a inteligência.

Partindo deste pressuposto, acredito que, mesmo sem saber equações estequiométricas, qualquer pessoa possa construir pensamentos inteligentes e plausíveis para viver em sociedade, independente da classe social. Qualquer um tem capacidade de entender que a política e seus governantes influenciam, permitindo ou não uma melhoria da classe.

Não defendo o fim da educação, mas cansei de ouvir que pessoas dizendo que as classes sociais menos favorecidas economicamente não têm capacidade de discernimento. Se assim fosse, a periferia não nos daria rappers politizado e movimentos artísticos engajados, como os grafiteiros. E, em contra ponto, a elite só nos daria pessoas preocupadas com cidadania, com a política, com a sociedade, ao invés de compras na Daslu, baladas e BBB.

Só que para o cidadão conseguir entender que o que ele vive não é o ideal, há necessidade do conhecimento dos fatos – independente da classe social. Ter informações capacita o raciocínio. E de quem é o papel de fiscalizar o Estado? Do jornalismo, oras! Quem mais tem acesso a fotos e é responsável por passar informações verdadeiras?

Então de duas uma, ou o jornalismo não sabe falar com a sociedade como um todo – convenhamos que há tempos não vemos algum movimento interessante social do Brasil; ou ele está vendido à política vigente e ao mercado. Eu prefiro acreditar na primeira opção.

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