O inferno em São Paulo

No coração de São Paulo existe um lugar que eu nunca queria ter passado. Não tenho dúvidas de que o que vi foi o mais parecido com a visão de inferno, tanto bíblico como o de Dante. Seres humanos, que naquela situação pareciam quase pessoas, se aglomeravam aos montes em dois quarteirões de uma paralela a Rio Branco. Não consegui contar, não conseguir falar… Espantei-me com tamanha degradação que o craque causou naquelas pessoas.

Você sabia que existia uma rua dessas em São Paulo? Você sabe como é que é, quer dizer, já viu como é? Se não, se você só ouviu falar, você não sabe o que é ver a degradação humana dessa forma. Não encorajo ninguém a tentar ver, a cena é inesquecível. Entretanto, acho importante que haja a indignação, que pessoas queiram mudar aquilo ali, que a população cobre do governo uma atitude de mudança, cobre o combate severo ao tráfico de drogas. Para que isso aconteça, é preciso que se fale do assunto, que se mostre.

Não tenho coragem de voltar lá para fotografar, aliás, não tenho coragem de voltar lá e ponto. Queria ter esse espírito aventureiro… Procurei no Google por imagens de lá, mas nenhuma consegue traduzir o que de fato é a Cracolândia. Posso tentar, com essas palavras, descrever o que vi em um minuto naquele inferno.

Acredito que havia mais de trezentas pessoas que, espremidas, espremiam os carros que desviavam da avenida fechada por causa da virada cultural. Seminuas, nuas, sujas, agarrando-se pelos braços, estiradas no chão, meninas, meninos, mulheres e homens gritavam e fumavam o cachimbo com craque em plena luz do dia, na hora do almoço de domingo.

Atravessou a rua uma menina, deveria ter por volta dos 13 anos. A blusa estava rasgada, as costas estavam imundas, os cabelos estavam curtos pela sujeira e pelos nós, estava de bermuda. Um homem, que aparentava seus 40 anos, a pegou pelo braço e jogou-a no chão. Ela levantou e continuou andando, como se nada tivesse acontecido.

Perguntei: Meu Deus, o que é isso? Logo, me responderam: É o inferno! Lembrou-me aquela cena do limbo do filme estrelado por Robin Willians, “Um Amor Além da Vida” (a cena, você vê no vídeo acima)

Foram poucos minutos de contato, capazes de me fazer abominar todo e qualquer tipo de droga, de me fazer enxergar o quanto esses alucinógenos – químicos, naturais, legais ou proibidos – transformam pessoas comuns, boas, em animais.

Virando à direita, há dois quarteirões dali, postos policiais com viaturas que nada fazem. Parecem que não ligam para o que está acontecendo. É desencorajador e prova irrefutável de que aquilo ali não vai acabar tão cedo.

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