A superficialidade do “A Rede Social”

“A Rede Social” tinha tudo para ser um excelente filme: história relativamente cativante, boa direção e, principalmente, discussões extremamente pertinentes no mundo de hoje. Contudo, só posso definí-lo como superficial ou, melhor ainda, filme Sessão da Tarde. Fincher, que fez filmes como os excelentes Clube da Luta e Seven, teve uma preocupação tão grande em transformar a história boba de Zuckerberg em um thriller à lá Seven, que deixou de lado as discussões importantes que rondam o filme. Tudo é relatado apenas superficialmente.

A principal discussão deixada de lado, e uma das mais relevantes da internet, é sobre o que é realmente uma ideia original.  O filme poderia discutir até que ponto o uso de uma ideia anterir como referência é ferir propriedade intelectual. Uma outra que o filme deveria abordar, mas fica só na superficialidade, é a utilidade e relevância das redes sociais. Será que ela pode ser mais do que uma Ti Ti Ti virtual? Ela pode ser de fato uma extensão do mundo real? A última chance que eu vi veio quando o criador do Napster entrou na jogada: o que é verdade na mídia e o que é invenção. No diálogo, Zuckerberg diz a Eduardo: “se eu li no jornal que você é torturador de animais, porque devemos acreditar que Sean Parker é de fato drogado e abusa de menores?”. Discussões tremendas, mas que foram deixadas de lado em prol de um filme com mais ação – provavelmente para atrair mais espectadores. Não foi à toa que não reconheci em A Rede Social um filme de David Fincher, um diretor que sempre apresentou discussões sociais.

Outra coisa que me intriga é que a história não pode ser definida como narrativa de fato. Identifico um padrão nas boas histórias: a mudança do estado inicial da personagem ou sociedade tratada. Inclusive, segundo Barros, filósofo semiótico, a narratividade é entendida como “uma transformação de estado, operada pelo fazer transformador de um sujeito que age sobre o mundo em busca de determinados valores investidos no objeto” (Barros, Sintaxe narrativa, 1995:85). No caso de “A Rede Social”, Zuckerberg não é transformado pela história e não tem um objetivo com o aquilo que ele está fazendo. No filme, ele apenas executa uma ideia e é processado por isso.

Por fim, os diálogos são bons. São rápidos e inteligentes e, por isso, nos entretém. Mas, para mim, é apenas isso que o filme propõe e, portanto, classifico-o como fraco. Não merece o destaque que está tendo, muito menos estar entre os melhores filmes do ano.

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