Genialidade e Gainsbourg

Venho discutindo genialidade com diferentes pessoas ultimamente: a genialidade, no sentido “born-to-be”. É a revelação do futebol, aquele menino que nasce já sabendo como dominar a bola vinda de qualquer jeito. Ou aquele novo cantor, que encantou o mundo com sua belíssima voz que, aparentemente, sempre foi assim.

Todos esses discursos, repetidos à exaustão pela mídia,  nos levam a acreditar que, o brilhantismo não se desenvolve após muito trabalho e dedicação. Ou a pessoa nasce com o dom, e é genial, ou vai fazer outra coisa e ponto final. E fico cá, pensando com os meus botões, o quão comodo é pensar assim, para quem não tem o tal dom (o que deve ser 99,9% da população).

Exemplifico: o sujeito morre de vontade de se dedicar ao canto. Contudo, toda vez que abre a boca para entoar canções, se vê criticado por seu desafino. Pois bem, logo pensa: não tenho dom, vou fazer oura coisa. E pronto, o sujeito está conformado e o desejo escondido no fundo do peito (atormentando de vez enquando). Em contrapartida, penso no rapaz que nasceu com uma excelente voz e que, por algum motivo, não gosta de cantar. Deveria este ser pressionado a cantar (deve ser uma cobrança muito grande ser aquele que “nasceu para ser brilhante”)?

O tema em questão é abordado pelo filme Gainsbourg, quase sem querer. Sim, mostra Serge Gainsbourg como um talento genial, um artista que revolucionou a música francesa da época. Mas mostra também todo o esforço que este, desde de menino, dedicou à música e à pintura. Logo cedo, Gainsbourg largou a escola regular para se dedicar ao estudo das artes. E, logo cedo, dedicou-se arduamente – obrigado por seu pai – ao estudo do piano. Aqui, a genialiadade pressupõe trabalho, muito trabalho. Uma dedicação acima da média normal, de horas e horas ao dia, durante anos e mais anos.

Como filme, Gainsbourg é muito bom, quase uma cômica obra-de-arte. Eu, particurlamente, sou fã de histórias reais com um toque de fantástico (não é à toa que amo Miazaki, que inclusive vai lançar uma animação nova). Para mim, toda a parte imaginativa e sútil do filme transformou-o em uma história ainda melhor que a original. E sabe-se claramente que não houve a pretensão do diretor, Joann Sfar, de fazer uma biografia real, mas de exaltar o homem Gainsbourg. Vá, mas não espere um documentário. Se assim for, você sairá decepcionado do cinema!

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