Clara – 2

Château de Versailles (ph: Flavia K Cabral – abril/2012)

Clara escancarou a porta – ué, mas aqui tinha porta, peguntou-se. E entrou na casa gritando – como Clara era barulhenta – e cantando músicas que pareciam não fazer sentido algum.

Era justamente aquela hora do dia em que o quadrado amarelado ficava menor ao projetar-se no chão de taco de madeira escuro. Clara a viu espremida, de certa forma humilhada, naquele espaço tão pequeno, contorcendo-se toda de maneira quase desumana para caber  naquela forma um pouco mais larga que uma linha. Imaginou como seria possível alguém viver daquele jeito e, ainda por cima, considerar-se feliz.

– O que você está fazendo com a sua vida?

– Estou sendo feliz, não consegue ver? – respondeu ela.

Clara parecia de outro planeta. Não era bonita, talvez um pouco atraente, mas brilhava de tal maneira… E ria, ria muito, ria de tudo, o tempo todo. E era leve, de uma leveza sustentada por poucos seres na face da Terra. Parecia um pássaro, um peixe, ou qualquer um desses animais impressionantes que tem a capacidade de atravessar continentes inteiros livremente.

Ela a odiou imediatamente. Odiou todo aquele blá blá blá idiota de que o mundo ía além daquele quadrado solar. Odiou intensamente toda aquela felicidade que, para ela, parecia falsa (como alguém pode falar de felicidade desse jeito?, pensava). Odiou aqueles cabelos claros, quase brancos, enormes e cheios de ondas e aqueles olhos escuros que pareciam, ao mesmo tempo, tristes e felizes. Odiou o fato de Clara estar sempre certa, de ter resposta pra tudo, de saber tanta coisa. Odiou a si própria e sua ingenuidade de não conhecer nada. E odiou todo o poder que Clara exercia sobre ela, fazendo sentir-se ainda menor, mais infantil e, de certa forma, infeliz.

Invajava-a todos os dias, mesmo quando Clara não estava lá. Sonhava que se transformava em Clara de tanto que queria ter a coragem de escancarar portas e sair por aí, sem se importar com segurança, com estatus, com os outros. Invajava todo o egoísmo de Clara de fazer exatamente o que queria sem nunca se importar com o que os outros estão achando ou sentindo. Acordava suada, no meio da noite, sentindo calor e frio ao mesmo tempo e não conseguia mais voltar a dormir.

Pensava no que Clara poderia estar fazendo – provavelmete algo mais interessante do que pensar nela.

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