Clara – Cap 3

Herdade do Esporão, Reguengos de Monsaraz (ph: Flavia K Cabral; Portugal/2009)

Apesar de todo ódio que sentia, amava cada história que Clara contava. Seus olhos brilhavam ao saber que lá fora havia oceanos, o vento e mais luz.  Clara falava de ilhas distantes, de teorias completas, de filmes e livros incríveis. E falava de trevas, de confusões e de pessoas maldosas. Falava também de dor, mesmo que parecesse que Clara fosse a pessoa mais feliz do mundo.

Clara contou do dia que dilacerou uma fita vermelha. Dançava, subia e descia graciosamente na fita, como aquelas belas bailarinas circenses. Ela ficava imaginando o tecido de cetim vermelho sangue envolvendo a cintura de Clara, as mãos, o corpo inteiro firmemente. Ficava imaginando a textura da fita no corpo de Clara – e como deveria ser macia a sua pele. Imaginava-se a própria fita…

Clara ficou ali, a se divertir por um tempo considerável (foram dias, meses?) e achava que tinha, enfim, encontrado o seu lugar. Até o momento em que seu pescoço, sem que ela percebesse, foi totalmente enlaçado. Sufocou, sintiu-se presa, sentiu-se enjaulada. Quando se deu conta, gritou, debateu-se, desesperou-se, mas não conseguiu soltar-se. Tentou todas as alternativas possíveis e imagináveis (ela não queria machucar a bela fita que a tinha proporcionado os momentos mais lindos que vivera até então). Clara chorou, chorou muito, quase morreu, mas, por fim, reuniu uma força sobre-humana e rasgou a fita sem saber direito como. Era isso ou prisão; era isso ou morte. E não estava disposta a morrer, não daquele jeito, não naquele dia. Caiu de uma altura relativamente grande, machucou-se como nunca havia machucado-se antes, mas estava viva, respirando com dificuldades, mas viva. Clara cegou-se de raiva, picotou a fita com todo o ódio do mundo, sem pensar nas consequências. Quando olhou para trás, a fita estava dilacerada, destruída, sem nenhuma perspectiva real de se refazer. Saiu, bateu a porta atrás dela e jurou nunca mais prender-se novamente. Vez ou outra visitava aquele quarto, só para lembrar do que não deveria fazer nunca mais. Sorria de canto, melancólica, mas quase que orgulhosa.

Ela sentiu um aperto no coração, uma vontade de pedir para Clara não desistir de encontrar novas fitas, que não sabia exatamente de onde vinha. Mas o momento passou e Clara já estava falando dos dias confusos que passou após isso – toda alegre e contente.

Ela se deu conta de que agora, o  importante era que Clara falasse, o máximo possível. E quanto mais falava, mais encantada ela ficava. E, quando Clara ía embora, levava junto uma parte importante de seu dia. E, ao invés de esperar ansiosamente pela hora que o quadrado começava a projetar-se, ansiava pelo momento de Clara chegar. Ela queria ouvir mais histórias, queria saber mais, queria conhecê-la mais.

E Clara sempre voltava cheia sorrisos, canções e muitas palavras.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s