Clara – Cap. 4

Lennon's Wall

Lennon’s Wall, Praga. (ph: Flavia K Cabral, abril/2012)

Clara visitava-a duas vezes por semana há algum tempo já, mas ainda não sabia seu nome – nunca tinha perguntado a ela e, por isso, ela nunca tinha falado. Referia-se a ela como “linda”, “baby” e “ei” ou “ou”. De vez enquando soltava um “garota”, o que deixava-a meio brava (e quando isso acontecia, emburrava a cara como uma criança e sorria logo após).

Ela chamava-se Niko. Tinha belos cabelos, enormes, lisos e pretos como nanquim. Um rosto pequeno, que ela achava que se parecia com um rato, e era magra, muito magra, seus ossos apareciam em todas as partes do corpo. Aliás, sempre achou que nunca alguém poderia achá-la interessante – Clara muito menos, deveria achá-la um monstro. Os olhos, o que chamava mais atenção, eram pretos como duas jaboticabas perfeitas e brilhavam daquele mesmo jeito de quando derretemos o açúcar para virar caramelo – eram belos olhos negros.

Niko ouvia atentamente o que Clara dizia, imaginando cada objeto, pessoa, situação, paisagem. Às vezes, não ouvia nada. Ficava hiponotisada ao ver seus lábios em movimento e mergulhava em montes de sentimentos e pensamentos que julgava ser errados. Niko nunca tinha sentido algo assim antes, por ninguém, especialmente por uma mulher. Estava se achando suja. Tomava banho três vezes ao dia para limpar-se. Tentava reconfortar-se na raiva que havia sentido de Clara um dia e em todas as histórias que se opunham ao que Niko gostaria que ela fosse.

Numa terça, Clara falava do quanto estava feliz por fazer planos para viajar no futuro. Visitaria um lugar que nunca tinha ido e a perspectiva disso deixava-a estonteante. Niko parecia conseguir ver seu corpo emanando pequenos faixos rosas de felicidade pelo poros daquela pele leitosa. Ela estava ainda mais radiante do que nos outros dias, ainda mais bela.

Então, Niko distraiu-se em pensamentos e não ouvia mais nada, só conseguia ver Clara em movimento, suas mãos, expressões e lábios, e seus olhos brilhando. Ela sentiu uma vontade súbita de tocá-la de alguma forma, no braço, na mão. Na realidade, queria abraçá-la e, por não conseguir por algum motivo mais forte que ela, tinha raiva. Parecia estar travada pela perspectiva de apenas chegar um pouco mais perto dela. Aliás, o que tubilhava dentro dela era uma mistura de sentimentos: ódio, desejo e algo que ainda não sabia o nome – ou não queria nomear.

Impulsivamente, Niko saiu da inércia e tocou levemente o braço de Clara enquanto falava. Se arrependeu no minuto seguinte, com medo dela não gostar. Mas Clara não se importou, continuou a falar toda empolgada de seus planos. Niko abriu o maior sorriso do mundo que podia dar naquele dia.

– O que foi? Parece feliz. – disse Clara.

– Eu estou feliz de você estar aqui nesse exato minuto!

– Que bom, eu também estou feliz de estar aqui, agora – e continuou a falar.

Nesse dia, Niko não conseguiu dormir. Repetia aquele momento mil vezes na cabeça, com medo que pudesse esquecer.

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