Clara – Cap 5

Notre Dame Garden, Paris (ph: Flavia K Cabral/ abril, 2012)

Não era só Niko que estava se envolvendo. Clara, que nunca se importara muito com outras pessoas, sentia uma vontade quase benfeitora de tirar Niko dali, de mostrar a ela o mundo que conhecera e explorara tanto. De vê-la sentir pela primeira vez o calor do sol no corpo inteiro, o vento nos cabelos e o perfume de relva pela manhã. Queria correr, puxando Niko pelas mãos, levando-a a lugares que nenhuma das duas esteve. Queria pegar todos os membros do seu corpo e esticá-los, estendê-los ao infinito, até Niko parar de se encolher e não querer voltar a fazê-lo nunca mais. Queria libertá-la, acordá-la pra vida – estava encantada pela inocência, por aquele olhar meigo, pela melancolia bela. E, pela primeira vez, a perspectiva de ensinar uma pessoa a viver livremente a animava.

Clara saía de lá em devaneios. Bolava planos para fazer com que Niko parasse de se protejer. E entrava num jogo de sedução na sua cabeça, pensava em palavras que pudessem tirar Niko daquele marasmo que a irritava, em histórias que transmitiam o que era a vida, em gestos que poderiam dar-lhe mais segurança e confiança. Mas Niko era complicada, relutava muito e tinha medo. Medo de cair, de se queimar, de não ser aceita lá fora. Tinha medo de sentir frio, de sentir calor, de sair da amenidade e do conforto, de andar descalça, de pisar no caco.

Clara detestava esse medo de viver da Niko. Seu grande desejo era vê-la desabrochar, libertá-la do que ela achava ser uma prisão. Mas Niko não se sentia presa. Na maior parte do tempo, sentia-se segura, protegida de dores que sabia que não queria sentir. Nunca havia pensado em sair, mas agora que considerava, obviamente sentiria medo – é difícil largar a segurança pelo que considerava incerto (toda mudança gera o pensamento do completo erro e de que a probabilidade de queda é grande). E o que mais a apavorava era ter a quase certeza de que Clara iria deixá-la a vagar sozinha, perdida, sem chão. Que, depois que conseguisse o que queria e a empurrasse porta a fora, ela simplesmente soltaria a sua mão naquele mundo enorme que não conhecia e Niko ficaria abandonada, sozinha, sem saber como voltar para a segurança de seus dias parcialmente e limitadamente iluminados. Niko se desesperava só de imaginar isso acontecendo. E via, em sua mente, as gargalhadas que Clara daria ao contar para os outros, porque Niko sempre tendia a pensar no pior.

Havia decidido que não sairia dali, não percebera que já era tarde demais. Clara já invadira sua vida e contara tudo o que tinha lá fora. Não percebia que, ao imaginar-se vivendo aquele mundo, já havia mudado para lá. Ela não viu que Clara já havia tornado tudo o que um dia ela achou maravilhoso em algo insoço. E que somente a ideia de sair dali já a contaminara por inteira, mesmo com sua insistente negação diária.

Um dia, Clara empurrou-a a força até a porta.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s