Clara – Cap 6

Montmartre, Paris (ph: Flavia K Cabral/ Março, 2011)

 

Niko sentiu um desespero sem igual ao olhar pra fora. De tanto, empurrou Clara para o lado com tamanha força que ela caiu no chão. Machucou-se, obviamente, mas Niko simplesmente não percebeu. Já havia corrido com a destreza de um gato que foge do perigo para o seu quadrado de luz. E lá ficou. Clara levantou-se e olhou aquela cena patética. Irritou-se profundamente, parecia que uma onda invadira seu corpo, atingindo sua mente como água, água de ódio (se  Niko tivesse conseguido reparar nos olhos que a encaravam, de certo sentiria medo).  Mas Clara respirou fundo algumas vezes, abraçou Niko e foi embora. Não falou uma palavra, apenas virou as costas e foi-se.

Niko ficou ainda mais desesperada. Pensou na possibilidade de Clara nunca mais voltar. Parecia uma barata tonta de tantas vezes que foi até a porta e voltou ao quarto.  Não conseguiu avançar, o medo era maior. Voltou para seu quarto e ficou lá, insone, esperando o dia clarear. Pensava em todas as coisas que poderia ter falado, pensava que poderia ter simplesmente conseguido sair pela porta. Se arrependeu, estava triste, mas não chorava. A dor era forte, mas não chorou.

Clara andava devagar, esperando Niko vir atrás. Quando percebeu que não vinha, foi viver o mundo. Foi fazer as coisas que sempre fazia, andou por aí, tocou em flores, sentiu o perfume do mundo, falou com pessoas, ouviu músicas, viu filmes, leu. Mas não conseguiu tirar Niko da cabeça. “Maldita”, pensava. Deveria ter previsto que ela não sairia daquela vidinha ridícula. E, como tinha cansado um pouco de pensar, simplesmente deixou o assunto de lado.

Niko entrou no banho. A água do chuveiro, ao tocar em seu corpo, parecia machucá-la. Os pingos pareciam cortar sua pele e ela sentia cada pelo do seu corpo arrepiar-se. Pensou: “Bem que Clara poderia ficar aqui simplesmente, comigo, na minha segurança.” Mas sabia que não poderia pedir isso, ela era um pássaro e o pensamento de deixá-la presa parecia injusto e, acima de tudo, feio. “Ou, quem sabe, continuar do jeito que estava. Estava bom, não estava? Pelo menos aceitável. Por que ela simplesmente não aceita as coisas como são?”

De repente, Clara voltava a pensar em Niko. Culpava Niko de tê-la iludido, culpava-a de a ter feito acreditar que, algum dia, sairia pela porta – e talvez tivesse saído, se não tivesse sido pressionado tão cedo. Clara sabia o que queria: queria levar Niko com ela. Até considerou mudar-se para lá, mas sabia que não conseguiria viver seus dias num pequeno quadrado de luz.

Dias passaram-se. Clara não conseguiu conter-se e resolveu voltar! Niko a esperava encolhida no escuro do quarto, fugindo da luz. Cobria o rosto com os belos cabelos pretos. Quando percebeu Clara, olhou para cima:

– Por que você demorou tanto?

E saiu de seu canto para abraçá-la.

 

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