Clara – Cap 7

Copenhage, Dinamarca (ph: Flavia K Cabral/ Março, 2012)

– Eu não posso te prometer nada. Não sei nem o que vou comer pela manhã, quanto mais garantir qualquer coisa a você; disse Clara.

– Você é completamente louca. Não posso sair por essa porta sem garantias de que você não vai largar minha mão.

– Eu não vou largar da sua mão.

– Mas por quanto tempo você irá segurá-la?

– Isso eu não posso dizer.Um mês, seis meses, um ano, dez anos… Não tenho como saber. Não posso te prometer nada. Não consigo, ao menos, dar-te a segurança de que o mundo lá fora é melhor para você do que esse aqui dentro. Minha vida não funciona desse jeito, não faço planos, não vivo roteiros. Se você decidir sair, vai ter que ser por si própria e porque você quer isso.

– Não posso sair ainda…

– Eu não vou conseguir esperar muito mais…

– Eu sei.

Os dias passaram-se mais ou menos do mesmo jeito. Clara vinha, Niko ouvia, Clara ía embora, Niko sentia falta. As visitas iam ficando mais frequentes, tomavam mais tempo. E Clara sempre pensando em maneiras de tirar Niko de lá – com palavras, com músicas e com gestos… Tentou de tantas maneiras que estava ficando cansada, muito cansada. Toda essa história tinha transformado-a. Continuava alegre e rindo de tudo, mas perdera parte da leveza. Ainda andava por aí saltitante, mas pensava em Niko o tempo todo. Seu semblante ainda transmitia paz, mas seus olhos, para bom observador, estavam tristes. Clara já não comia direito e fumava demais, um cigarro atrás do outro. E pegou a péssima mania de embebedar-se sempre que podia para tentar esquecer um pouco do que estava acontecendo. Mas, quando visitava Niko, tudo que vivia lá fora parecia menor e pensava que todo esse sentimento fazia parte do processo de deixar Niko fazer parte da sua vida. Estava engana. Niko não sairia dali, não tinha intenção disso, por mais que quisesse sair quando Clara estava ao seu lado.

Um dia Clara ficou 24 horas inteiras e foi intensamente feliz. As duas foram íntimas por todas essas horas, cúmplices daquele dia. Mas Clara foi embora e não voltou no dia seguinte. E nem no outro, e nem no outro… Clara nunca mais voltaria.

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