Clara – Cap 8.

Petit Palace, Versailles. (ph: Flavia K Cabral/abril 2012)

Quando percebeu que Clara não voltaria, Niko foi tomada por uma tristeza que fazia anos que não sentia (aliás, já tinha sentido isso alguma vez?). Pensava em como era fácil amar quando existe a concretude do olhar, do tocar e do sentir ao vivo. Descobriu o quanto dói saber que todos aqueles momentos não se repetirão jamais. Não entendia direito porque isso acontecia, não sabia explicar porque agora e, nesse momento, arrependia-se de não ter saído com Clara. Porque agora dar um passo para a fora segurando aquela mão parecia tão mais fácil do que não vê-la nunca mais.

Mas Niko decidiu que voltaria a ser feliz na vida que tinha antes. Sentou no chão, na escuridão. Abraçou suas pernas e encarou o quadrado amarelado. As pernas formavam um X, cobrindo-lhe os seios; a cabeça pendia no joelho direito, os cabelos soltos e lisos quase tocavam o chão. O olhar vagava pelos contornos do quadrado. Foi só então que ela se deu conta de como era pequeno aquele espaço, era sufocante (como poderia ter se considerado feliz ali?).

Lembrou do dia que Clara a achou. Parecia tão distante no tempo e no espaço. Percebeu que, aos poucos, sua memória pregava-lhe peças e sumia com momentos e frases importantes que tinha prometido a si mesma e a Clara nunca esquecer. E viu que não adiantava esforçar-se para lembrar, estava aos poucos esquecendo. Perguntou-se porque não tinha escrito tudo o que Clara disse a ela… Arrependeu-se novamente. Não poderia esquecer. Esticou a perna esquerda e colocou o pé no quadradado amarelado e, ao sentir o calor do sol na pele, chorou copiosamente. Chorou de saudade, por ter sido abandonada, por ter sido medrosa, por estar esquecendo, por si mesma e por Clara.

Tentou chamá-la baixinho. Mas aquela conexão que um dia foi tão forte já não existia mais. Antes, ao chamá-la, sentia a resposta, como se existisse um canal exclusivo que não fosse desse mundo, que fosse além de tudo aquilo que conhecia como humano (como poderia ela criar algo assim com alguém que conhecia há tão pouco tempo?). Mas naquele dia não, nada vinha, nada.

O silêncio da casa a incomodava, talvez isso fosse o que mais cortasse seu coração. Entrava no banho e passava minutos (ou horas) sentada no chão, sentindo a água tocar no seu corpo e as lágrimas escorrerem no seu rosto. Pensava que Clara tinha cansado de tudo aquilo. Na verdade, achava ela uma filha da puta e covarde por ter ido embora sem falar nada. Passou a considerar que aquela mulher era, na verdade, doente: ansiosa, impaciente e egoísta. Ela não entendia o próximo e só pensava em si mesma, em satisfazer-se, no prazer que tinha de atormentar a vida dos outros, em deixar feridas abertas e sangrando por aí sem olhar para trás. Porque, na realidade, Clara tinha necessidade de ser lembrada e fazia isso pela dor e não pela alegria, porque a alegria pressupõe responsabilidade; dor é descaso. Vaca, filha da puta, desumana.

Socou o chão uma, duas, três vezes, até sentir o sangue escoar em suas mãos. Olhou-se no espelho, bem dentro de seus olhos, e socou-o com raiva. Ajoelhou-se, espremeu-se, deitou-se, chorou-se e dormiu. Dormiu por dias. Acordava de vez enquando para chorar. Um dia, levantou-se, decidida a sair dali e procurar por Clara, pedir para ela voltar. Vestiu-se bela, arrumou os cabelo e foi até a porta. Parou por um instante diante da luz, respirou fundo e deu o primeiro passo.

 

 

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