Clara – Capítulo 9 (o penúltimo)

MoMa, New York City (ph: Flavia K Cabral/ dezembro, 2009)

As primeiras coisas que Niko sentiu ao sair pela porta foram o calor do sol em todo seu corpo, o ar puro e livre e o vento. Este último, de maneira completamente estranha, passava até por entre os dedos de suas mãos e balançava livremente os fios dos seus cabelos. Ouviu o tilintar de seus brincos levamente, sentiu as extremidades do seu corpo esfriarem. No dia que Clara contara sobre o vento, imaginava que a sensação fosse despertar algum tipo de dor. Mas agora que vivia-o de verdade, percebeu-se em quase torpor de tão incrível que era simplesmente sentí-lo (como poderia algo que tocava sem permissão seu corpo inteiro ser tão bom?).

Estranhou a textura do chão lá de fora, esverdeado e desregular. Ao pisar, sentia um leve incômodo, mas teve certeza que se acostumaria aos poucos. Sorriu. Era realmente muito bom estar lá fora. Lembrou dos olhos de Clara; queria celebrar este momento com ela, contá-la de seus sentimento (como é lindo tudo isso aqui, né?), abraçá-la forte e agradecê-la por a ter levado lá fora. Sentiu um aperto no coração tão grande que todo aquele momento tornou-se triste. Se tivesse feito isso antes, talvez Clara não teria ido embora. Talvez agora estariam juntas, em qualquer outro lugar, ou ali mesmo. Mas a vida não é tão simples, as escolhas passam e, asnos e pasmos, não percebemos quando elas simplesmente se vão. Parece que as chances entram em trens e partem adiante, tornam-se de outras pessoas, desaparecem ou morrem. Era mais ou menos isso que Niko sentia – o que doia bastante, a ponto de não ser plena vivendo essas novas experiências.

Virou-se para trás e viu a porta por qual saiu. O que faria agora? Tinha uma paisagem inteira para percorrer, sentindo-se sozinha e perdida. Mas estava decidida a rever Clara, nem que fosse para despedir-se. Olhou para os dois lados, escolheu a direita e partiu.

Andou por aí pelos planos, subiu algumas colinas, viu tanta coisa diferente. Experimentou novos sabores, viu novas cores, ouviu sons e músicas que Clara tanto gostava. Conheceu pessoas interessantes, emendou algumas conversas válidas, mas nunca tão belas e profundas. A cada coisa nova que conhecia, valorizava mais os momentos que passou com a menina que escancarou seus planos. A cada esquina que dobrava, lembrava-se disso. Primeiro com dor, depois com uma espécie de alegria e gratidão por ter vivido de forma tão simples um amor.

Realmente estava vivendo muita coisa. Sentimentos bons e ruins que se misturavam como guachê. E, como guachê, encontravam-se vestígios do que tinha sido aquela cor, mas logo transformavam-se em outra coisa. Era realmente difícil o mundo lá fora, havia muita dor, porém era belo e perfeito em seus defeitos. Talvez, os mais desentendidos ou menos despertos, opinassem que o melhor seria permanecer dentro de casa, protegida. Niko, contudo, percebia que essas pessoas simplesmente não tinham imaginação ou visão. Viver naquela prisão já não era possibilidade, por mais que fosse o mais seguro a se fazer. Agora, na realidade, já não ligava para manter-se racional, queria sentir de tudo.

Virou numa rua de paralelepípedos enormes, casinhas coloridas margeavam-na. Escolheu a mais avermelhada e entrou. Não conseguiu conter a felicidade quando finalmente encontrou o destino de Clara.

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