A má escolha de Michiko

Lisboa, Portugal (ph: Flavia K Cabral, junho 2009)

Lisboa, Portugal (ph: Flavia K Cabral, junho 2009)

 

Michiko sempre foi uma mulher armada. Cheia de máscaras, nunca preocupou-se muito em sentir. Ouviu dizer que isso, na realidade, era um problema sério. Conveceram-na que, caso continuasse assim, se transfomaria em máquina sem perceber e arrependeria-se do que não tinha sentido ao longo da vida. Diziam a ela que a vida era curta demais para racionalizar tudo, que o certo era simplesmente viver um dia de cada vez. Por isso, decidiu que passava da hora de permitir-se sentir.

Então, Michiko pegou suas duas pernas, e sua coragem, e traçou caminhos diferentes. Decidiu que, nesses caminhos, se permitiria sentir um pouco mais, abrindo partes de si que nunca tinham sido acessadas. E todas as pessoas que a rodeavam perceberam. Alguns, aproveitando a porta aberta, entraram arrebentando tudo. Outros, estranhando, afastaram-se um pouquinho por não reconhecê-la. Poucos mantiveram-se ao seu lado, como sempre estiveram, e entenderam de fato o que se passava.

Ela viveu alguns meses dessa forma, sentindo sem se preocupar com o depois. Quando deu por si, viu-se despedaçada em sentimentos fantasiosos, longe da realidade, e machucada sem ao menos saber o porquê. Sentiu amor, saudade, paixão, amizade, euforia, mas sentiu muita dor. Pois que veio então o arrependimento por ter-se aberto, talvez para pessoas erradas. “Antes, tivesse continuado armada. Antes tivesse continuado a racionalizar”, pensava Michiko.

Passou algum tempo achando que nunca conseguiria fechar essa porta, mas um belo dia, acordou sem paciência. Decidiu não querer mais ter contato com essa parte de si. “Que fique escondida, como um monstro, nas profundezas da minha mente (e do meu coração). Vou colocá-la na caixa mais funda da minha existência, na parte mais imersa do iceberg, jogar tudo para o alto e voltar a viver como antes”. E simplesmente juntou tudo que tinha, toda a força que conseguiu reunir e bateu a porta pesada na cara dos outros.

Agora, não tem certeza se a porta se marterá fechada por muito tempo. Espera que, se caso a porta abra sozinha, que pelo menos esteja prepada, armada e fortalecida. E é nisso que, nesse momento, está trabalhando.

 

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