Inacabada

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Hoje tronsformo-me em chuva
Por um boneco de outrem.
Mas não por inveja
Ou qualquer possessão.
Apenas pela saudade de brincá-lo.

Amanhã, talvez, seja o boneco
Que, ao ganhar uma vida inexistente,
Uma vontade quase impossível,
Transforme-se em tormentas
E tente mover montanhas.

Mas hoje, cegamente, só penso
Em esquecer aquela beleza
A diversão e os olhos
Tento existir sem lembrar
E apressar o relógio.

Porque palavras são esquecidas
Promessas enfraquecem
Sentimentos se equilibram frágeis
Quando o tempo não é igual.

Será que um dia nossos relógios estarão compassados?

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Último suspiro de Amelie

– Não, hoje não vou mais me permitir ser quem eu não gostaria de ser. – disse Amelie, ainda olhando para aquele espelho.

Esse pensamento gritou quando ela encarava bravamente ao seu reflexo. Olhava profundamente nos olhos tão escuros que mal se podia distinguir as ranhuras da íris. E, naquele dia, naquele momento, não se chamava Amelie. Na realidade, não tinha nome, nenhum.

Sabia perfeitamente os motivos que a levaram chegar nesse ponto. Lembrava de quando havia decidido aventurar-se, abrindo-se para parte que ficava literalmente mais à esquerda do seu corpo. Escutar a imbecilidade que, por algum motivo estúpido, levou-a pensar:

– Não é nada demais para não se tentar.

Agora, um filme cheio de cenas lindas passava em sua cabeça, cenas que a despedaçavam inteira por dentro. E se arrependia de, novamente, deixar que lhe sugassem um pouco de vida.

Estava decidida.

– Amelie, querida. Não seja tão dura assim. Realmente, não é nada assim, tão difícil. Nada que você já não tenha sentido antes.

– Lena, você não consegue entender. Cansei dessas pessoas, desses vampiros que se alimentam de luzes que os outros emanam. Na realidade, eu venho pensando em apagar-me um pouco. Que mal farei? Tem tanta gente que reclama, que não entende, que me odeia a troco de nada.

– Você está exagerando.

– Bla bla bla, Lena. Não posso, não vou e não quero mais deixar ninguém estranho entrar. Chega, isso que as pessoas insistem em enxergar como brinquedo fechou. No more tickets.

– Ok, ok… Só não vá fazer besteira.

Amelie gargalhou, uma gargalhada irônica. Uma gargalhada que poucos ouviram um dia. Lena, que estava a seu lado há quase 20 anos, nunca ouvira. Assustou-se, não reconheceu sua amiga.

– Você está muito magoada.

– Estraçalhada.

– Precisa ficar forte.

– Estou trabalhando nisso.

– Está decidida?

Gargalhou de novo.

– Como nunca, Lena.

Amelie levantou-se, deu um último gole na taça de vinho, secou a boca com o dorso da mão e repetiu, com um sorriso maléfico:

– Como nunca.

Jogou uma nota de cinquenta reais na mesa, virou-se e saiu sem olhar para trás. Lena, preocupada, cogitou ir atrás, mas desistiu. Voltou a mesa de conhecidos para dar gargalhadas de alegria.

Ela traçou um caminho reto e determinado. Chegou ao lugar que tanto conhecia. Apertou o botão do interfone. Um voz sonada, doce, que cortava seu coração de maneira surpreendente, atendeu.

– Amelie?

– Preciso falar com você. Desce.

Cadu esfregou os olhos, vestiu um moletom qualquer – estava relativamente frio para o mês de janeiro. Desceu.

– Você não deveria ter feito isso, Cadu.

– O que?

– Sugado minha luz, idiota.

– Do que você está falando?

– Sabe que eu sempre vi pessoas como você fazer isso comigo. Sempre, em toda a minha vida. Hoje eu simplesmente cansei. Olhei no espelho e cadê meu brilho? Cadê eu? Tá aí, ó, desperdiçado, estraçalhado nesses lençóis bregas e usados da sua casa horrenda com chão de piso frio… Até seu piso é frio…

Ela riu ironicamente e falou baixinho:

– Meu Deus, como não percebi isso antes…

– O que tem meu piso a ver com toda essa história, Amelie?

Ela gritava, desesperada:

– Você sabe de que cor é o piso do meu apartamento? É de madeira, quente, aquecido. Com belos tacos que fazem aqueles barulhos confortáveis quando pisamos, sabe? Escolhido a dedo para aquecer. E sabe o que isso significa? Que eu sou uma pessoa quente, que eu seu uma pessoa humana, que corre riscos quando sente que deve… Uma pessoa que sente pra caralho.

– Amelie…

– E sabe o que seu piso horrendo, frio, branco e sem nenhuma sujeira significa, esse piso que você próprio escolheu? Que você é desesperado por ordem, por não deixar as coisas saírem do seu controle. Que você é frio, como seu chão. E que qualquer sujeira que surgir na sua vida, você vai limpar, sem cerimônias, com um pano que dói os olhos de tão branco, embebido com Veja perfume festa das flores. Você é ridículo.

– Amelie…

– Ridículo, Cadu. E sabe o que eu mais quero fazer agora? Subir lá na sua casa com uma porra de uma marreta e arrebentar todo aquele chão ridiculamente branco. Arrebentar até não sobrar nenhum piso de porcelana ou sei lá qual material imbecil que é feito aquilo lá… Deixar tudo no concreto, deixar tudo cinza. Talvez, assim, você perceba essa porra de vida fria que você tanto se gaba…

Amelie voltou poucos minutos depois com uma marreta. Cadu, falhamente, havia deixado a porta aberta. Ela, com toda a raiva, começou a marretar o chão. Cadu gritava:

– Você tá louca? Para com isso, sua desordenada.

Ela batia com toda força a marreta no chão, com uma raiva que nunca havia sentido… Mas o chão não cedeu. E ela havia tentando muito. Cadu, a seu lado e modo, pedia gentilmente para ela parar.

Uma hora depois, percebeu que não conseguiria estraçalhar nada. E estava exausta. Sentou, apoiado-se na marreta e chorou desesperadamente. Cadu ainda tentou abraçá-la. Ela resistiu, balbuciou qualquer coisa. Desistiu de tudo aquilo, levantou e saiu correndo, sem saber pra onde.

A má escolha de Michiko

Lisboa, Portugal (ph: Flavia K Cabral, junho 2009)

Lisboa, Portugal (ph: Flavia K Cabral, junho 2009)

 

Michiko sempre foi uma mulher armada. Cheia de máscaras, nunca preocupou-se muito em sentir. Ouviu dizer que isso, na realidade, era um problema sério. Conveceram-na que, caso continuasse assim, se transfomaria em máquina sem perceber e arrependeria-se do que não tinha sentido ao longo da vida. Diziam a ela que a vida era curta demais para racionalizar tudo, que o certo era simplesmente viver um dia de cada vez. Por isso, decidiu que passava da hora de permitir-se sentir.

Então, Michiko pegou suas duas pernas, e sua coragem, e traçou caminhos diferentes. Decidiu que, nesses caminhos, se permitiria sentir um pouco mais, abrindo partes de si que nunca tinham sido acessadas. E todas as pessoas que a rodeavam perceberam. Alguns, aproveitando a porta aberta, entraram arrebentando tudo. Outros, estranhando, afastaram-se um pouquinho por não reconhecê-la. Poucos mantiveram-se ao seu lado, como sempre estiveram, e entenderam de fato o que se passava.

Ela viveu alguns meses dessa forma, sentindo sem se preocupar com o depois. Quando deu por si, viu-se despedaçada em sentimentos fantasiosos, longe da realidade, e machucada sem ao menos saber o porquê. Sentiu amor, saudade, paixão, amizade, euforia, mas sentiu muita dor. Pois que veio então o arrependimento por ter-se aberto, talvez para pessoas erradas. “Antes, tivesse continuado armada. Antes tivesse continuado a racionalizar”, pensava Michiko.

Passou algum tempo achando que nunca conseguiria fechar essa porta, mas um belo dia, acordou sem paciência. Decidiu não querer mais ter contato com essa parte de si. “Que fique escondida, como um monstro, nas profundezas da minha mente (e do meu coração). Vou colocá-la na caixa mais funda da minha existência, na parte mais imersa do iceberg, jogar tudo para o alto e voltar a viver como antes”. E simplesmente juntou tudo que tinha, toda a força que conseguiu reunir e bateu a porta pesada na cara dos outros.

Agora, não tem certeza se a porta se marterá fechada por muito tempo. Espera que, se caso a porta abra sozinha, que pelo menos esteja prepada, armada e fortalecida. E é nisso que, nesse momento, está trabalhando.

 

Clara – O Final

Český Krumlov, República Tcheca. (ph: Flavia K Cabral/ abril, 2012)

Disseram-na que Clara esta numa colina próxima dali, debaixo de uma imensa árvore. Viram-na ali pela última vez, disseram.

– Mas será que ela estaria ali ainda?

– Provavelmente. Não parecia que iria a outro lugar.

O caminho era longo, mas tranquilo. Niko ansiava pelo momento de reencontrar Clara e passava tanta coisa em sua cabeça que nem sentiu a distância. Parou diante de um cercado que abrigava um montante de árvores tão denso que não conseguia enxergar o lado de dentro. Acompanhou o alto cercado preto até achar a entrada, um portão de decoração art nouveau preto com detalhes dourados. Abriu-o devagar, ouviu um incômodo ranger. Sentiu um gelo na espinha – mau presságio, diriam.

Poucos passos e o denso bosque abria-se em uma pequena clareira. No meio, uma única árvore de cerejeira, estranhamente florida para aquela época do ano. Ao pé, havia uma pedra de cor quase azulada que cercava-se por coloridas flores. Um forma humana estava deitada naquele platô. Ao aproximar-se, percebeu: era Clara, mãos cruzadas na altura do coração, com um lindo vestido azul claro e semblante pacífico. Tocou-lhe o rosto, estava gélida, pálida. Niko nunca tinha visto Clara assim, tão sem vida. Descruzou-lhe os braços, balançou-a devagar, depois mais forte e mais forte. Clara não respondia, Clara jazia.

Não conseguia acreditar no que via. Gritou de desespero com Clara aos seus braços, lágrimas que escorriam de seus olhos molhavam o vestido azul. Era uma cena desesperadora, digna de filmes de guerra. Após um longo soluço, Niko abraçou forte aquele corpo, na esperança de transmitir um pouco de sua vida a ela (naquele momento, nada parecia tão importante como trazê-la de volta). Mas Clara não esboçava reação, não abria os olhos. Largou-a delicadamente, parecia pesar 120 quilos agora. Escorregou ao lado do platô, sentando-se expremida e amassando algumas flores. Ficou ali sentindo-se o ser mais impotente e imbecil do universo.

Não era religiosa, mas orou e pediu para todos os deuses e santos que vinham em sua cabeça, das mais diferentes crenças, que trouxessem Clara de volta. Suplicou por horas, baixinho, atolada em seus joelhos… Não percebeu quando entrou no mundo dos sonhos.

Em Clara abriu-se um pequeno buraco, bem na altura no coração. Um buraco vermelho vivo, que emanava uma luz azulada, como um raio. Niko tentou ver lá dentro, mas nada enxergou. Colocou uma mão sob a outra e tapou-o completamente, a luz escapava-lhe pelos dedos. Aos ouvidos de Clara, enconstou os lábios e, como se quisesse soltar um feitiço, falou:

– Volte a vida, minha querida, faço qualquer coisa que quiser. Ando com você pelo mundo o quanto desejar, volte por favor.

Nada aconteceu.

Niko, que continuava a tapar aquele buraco com as mãos, sentiu uma espécie de força sugá-la para dentro. Assustou-se e, num impulso, retirou as mãos rapidamente. A luz que escapava pelo buraco ficou ainda mais forte. Imaginou que poderia ser a alma de Clara escapando por ali e, para evitar que isso acontecesse, tapou-o novamente o mais forte que podia. Então, foi completamente sugada pelo buraco, de uma vez só.

Nesse exato momento, Niko acordou. Abriu o olhos, mexeu os braços, esfregou os olhos. Não lembrava de ter se deitado. Sua visão desembaçou, viu um pedaço de céu azul e flores de cerejeira. Olhou as mãos, não reconheceu-as como suas. Olhou para seu corpo, estava com um lindo vestido azul claro. Levantou-se do platô. Encostou os pés no chão, pés de Clara. Sentindo a relva, espreguiçou-se com prazer e  partiu contente a viver. Duas almas livres, um só corpo compartilhado.

Clara – Capítulo 9 (o penúltimo)

MoMa, New York City (ph: Flavia K Cabral/ dezembro, 2009)

As primeiras coisas que Niko sentiu ao sair pela porta foram o calor do sol em todo seu corpo, o ar puro e livre e o vento. Este último, de maneira completamente estranha, passava até por entre os dedos de suas mãos e balançava livremente os fios dos seus cabelos. Ouviu o tilintar de seus brincos levamente, sentiu as extremidades do seu corpo esfriarem. No dia que Clara contara sobre o vento, imaginava que a sensação fosse despertar algum tipo de dor. Mas agora que vivia-o de verdade, percebeu-se em quase torpor de tão incrível que era simplesmente sentí-lo (como poderia algo que tocava sem permissão seu corpo inteiro ser tão bom?).

Estranhou a textura do chão lá de fora, esverdeado e desregular. Ao pisar, sentia um leve incômodo, mas teve certeza que se acostumaria aos poucos. Sorriu. Era realmente muito bom estar lá fora. Lembrou dos olhos de Clara; queria celebrar este momento com ela, contá-la de seus sentimento (como é lindo tudo isso aqui, né?), abraçá-la forte e agradecê-la por a ter levado lá fora. Sentiu um aperto no coração tão grande que todo aquele momento tornou-se triste. Se tivesse feito isso antes, talvez Clara não teria ido embora. Talvez agora estariam juntas, em qualquer outro lugar, ou ali mesmo. Mas a vida não é tão simples, as escolhas passam e, asnos e pasmos, não percebemos quando elas simplesmente se vão. Parece que as chances entram em trens e partem adiante, tornam-se de outras pessoas, desaparecem ou morrem. Era mais ou menos isso que Niko sentia – o que doia bastante, a ponto de não ser plena vivendo essas novas experiências.

Virou-se para trás e viu a porta por qual saiu. O que faria agora? Tinha uma paisagem inteira para percorrer, sentindo-se sozinha e perdida. Mas estava decidida a rever Clara, nem que fosse para despedir-se. Olhou para os dois lados, escolheu a direita e partiu.

Andou por aí pelos planos, subiu algumas colinas, viu tanta coisa diferente. Experimentou novos sabores, viu novas cores, ouviu sons e músicas que Clara tanto gostava. Conheceu pessoas interessantes, emendou algumas conversas válidas, mas nunca tão belas e profundas. A cada coisa nova que conhecia, valorizava mais os momentos que passou com a menina que escancarou seus planos. A cada esquina que dobrava, lembrava-se disso. Primeiro com dor, depois com uma espécie de alegria e gratidão por ter vivido de forma tão simples um amor.

Realmente estava vivendo muita coisa. Sentimentos bons e ruins que se misturavam como guachê. E, como guachê, encontravam-se vestígios do que tinha sido aquela cor, mas logo transformavam-se em outra coisa. Era realmente difícil o mundo lá fora, havia muita dor, porém era belo e perfeito em seus defeitos. Talvez, os mais desentendidos ou menos despertos, opinassem que o melhor seria permanecer dentro de casa, protegida. Niko, contudo, percebia que essas pessoas simplesmente não tinham imaginação ou visão. Viver naquela prisão já não era possibilidade, por mais que fosse o mais seguro a se fazer. Agora, na realidade, já não ligava para manter-se racional, queria sentir de tudo.

Virou numa rua de paralelepípedos enormes, casinhas coloridas margeavam-na. Escolheu a mais avermelhada e entrou. Não conseguiu conter a felicidade quando finalmente encontrou o destino de Clara.

Clara – Cap 7

Copenhage, Dinamarca (ph: Flavia K Cabral/ Março, 2012)

– Eu não posso te prometer nada. Não sei nem o que vou comer pela manhã, quanto mais garantir qualquer coisa a você; disse Clara.

– Você é completamente louca. Não posso sair por essa porta sem garantias de que você não vai largar minha mão.

– Eu não vou largar da sua mão.

– Mas por quanto tempo você irá segurá-la?

– Isso eu não posso dizer.Um mês, seis meses, um ano, dez anos… Não tenho como saber. Não posso te prometer nada. Não consigo, ao menos, dar-te a segurança de que o mundo lá fora é melhor para você do que esse aqui dentro. Minha vida não funciona desse jeito, não faço planos, não vivo roteiros. Se você decidir sair, vai ter que ser por si própria e porque você quer isso.

– Não posso sair ainda…

– Eu não vou conseguir esperar muito mais…

– Eu sei.

Os dias passaram-se mais ou menos do mesmo jeito. Clara vinha, Niko ouvia, Clara ía embora, Niko sentia falta. As visitas iam ficando mais frequentes, tomavam mais tempo. E Clara sempre pensando em maneiras de tirar Niko de lá – com palavras, com músicas e com gestos… Tentou de tantas maneiras que estava ficando cansada, muito cansada. Toda essa história tinha transformado-a. Continuava alegre e rindo de tudo, mas perdera parte da leveza. Ainda andava por aí saltitante, mas pensava em Niko o tempo todo. Seu semblante ainda transmitia paz, mas seus olhos, para bom observador, estavam tristes. Clara já não comia direito e fumava demais, um cigarro atrás do outro. E pegou a péssima mania de embebedar-se sempre que podia para tentar esquecer um pouco do que estava acontecendo. Mas, quando visitava Niko, tudo que vivia lá fora parecia menor e pensava que todo esse sentimento fazia parte do processo de deixar Niko fazer parte da sua vida. Estava engana. Niko não sairia dali, não tinha intenção disso, por mais que quisesse sair quando Clara estava ao seu lado.

Um dia Clara ficou 24 horas inteiras e foi intensamente feliz. As duas foram íntimas por todas essas horas, cúmplices daquele dia. Mas Clara foi embora e não voltou no dia seguinte. E nem no outro, e nem no outro… Clara nunca mais voltaria.