Veja! Tetro

Ignorado pela imprensa especializada brasileira, o filme Tetro, escrito, produzido e dirigido por Coppola, é absurdamente bom. É daqueles que se tornarão clássicos daqui há alguns anos, serão referência nas aulas de crítica e cinema. Desde 1974 que Coppola não se dedicava ao cinema autoral e, com Tetro, ele prova que ainda é o mesmo gênio de Apocalipse Now e O Poderoso Chefão.

.

.

Com fotografia absurdamente linda, recurso visuais belamente usados, história e argumento perfeito, Coppola mostra porque é Francis Ford Coppola e merece respeito. Filmado na Argentina, conta a história de Tetro, um artista (um gênio, descobre-se) atormentado pelo passado da família. Bennie, irmão mais novo de Tetro, surge em Buenos Aires, onde mora atualmente Tetro, e começa a revirar o passado. Descobre-se, aos poucos, o motivo da relutância de Tetro encarar os dramas familiares que passou, que – como dito – destruiu uma família com tanto potencial.

Aos poucos, Tetro vai curando suas loucuras com a ajuda da arte, a mais bela arte pode-se dizer – o que gera lindíssimos planos cinematográficos. Enquanto a realidade se pinta em preto e branco, as memórias – traduzidas em peças teatrais por Bennie (irmão mais novo de Tetro) – vão colorindo fortemente o filme.

É belo, belíssimo. Fiquei estonteada. Tinha tudo para ser sucesso de crítica, a exemplo de Melancholia que, apesar de bom, não é nem metade do que Tetro é. O único defeito que achei foi a atuação dos dois atores que interpretam Tetro (Vicente Gallo) e Bennie (AldenEhrenreich). Quer dizer, a atuação é boa, mas não o suficiente para esse filme. Na realidade, a atuação destoa dos personagens, causando estranhamento. Dá a impressão de que os atores, no filme, são mesmo atores interpretando aqueles personagens e não as personagens reais.

Tetro foi lançado aqui no Brasil no final do ano passado. Fiquei sabendo dele apenas recentemente, quando estava procurando novos filmes para ver. Não consigo ainda entender o porquê desse filme ter sido tão ignorado. Será que faltou promoção? Será que Coppola não “agradou” as pessoas certas?


Clipes: plágio, homenagem ou tendência?

Quando Radiohead lançou Lotus Flower, em fevereiro deste ano, comentei que a técnica de edição usada era incrível. E continua sendo. A movimentação de Thom Yorke causa um certo estranhamento, mas muitos não conseguem perceber o porquê.

.

É a falta de frames, o que aconteceu muito com filmes antigos. Só que, na época, a falta de frames era um problema técnico. Antigamente, as gravações eram feitas em rolos de filmes parecidos com as bobinas fotográficas que se usava para fotografar antes do formato digital (lembra que tinha que levar pra revelar, ampliar? Nem faz tanto tempo assim). E o processo de edição era totalmente manual (cortava-se o filme e colava-se em outro pedaço, como bem explicado pelo Clube da Luta).

Com o tempo, algumas partes desses filmes perderam-se, ou queimados pela forte luz do projetor da época, ou rasgados, furados e simplesmente perdidos. Quando se vê filmes antigos hoje, percebemos alguns “pulos”, que é exatamente essa falta de frames (você pode ver um exemplo em “O Cão Andaluz”, de Dali e Buñuel, clicando aqui).

Nesse clipe do Radiohead, eles retiraram propositalmente alguns frames – só o suficiente para deixar o movimento um pouco picotado, sem exagerar muito para justamente causar tal estranhamento. Então, o cérebro acha que é a movimentação da pessoa é estranha, mas na verdade é a falta de frames. Genial, não?

Bom, a mesma técnica foi usada no novo clipe da Florence and the Machines (Shake it Out), mais para o final, quando ela dança – o que ficou bem bacana, por ser discreto. E exageradamente no controverso Countdown, na Beyoncé. Ambos você pode conferir abaixo.

.

Seria tudo isso um plágio, homenagem ou simplesmente tendência?

Never been pretty

Não sou bonita. Nunca fui. Nunca chamei atenção das pessoas apenas por estar ali e sem abrir a boca. Sou diferente, exótica. Quando criança, estudei em um escola alemã, em que a grande maioria das garotas era loirinha, de olhos claros e pequena. E eu, sempre fui grande, em muitos anos, uma das maiores da minha classe (ficava lá atrás na fila da festa junina, sem possibilidade alguma de ser a noivinha).

Minha condição de olhos puxados bem escuros, cabelos pretos e lisos, cara achatada e um narizinho de batata, naquele cenário de pessoas pequenas e loiras, me fez ser vítima de gozação (ou buylling, nos dias de hoje). Mas tb, não morri, fui vivendo, com algumas marcas, mas fui vivendo. Enfrentei do jeito que podia…

Mas, tudo isso me deu uma vantagem. Aprendi a chamar atenção com substância. Desde criança leio muito, começando com contos de fadas, passando por Pedro Bandeira e chegando aos Nobels. Vejo muitos filmes, ouço muita música, leio muita notícia – o que me faz conseguir conversar sobre praticamente qualquer assunto. E sou simpática, sorrio muito, dou muita risada e faço muitas brincadeiras. Tento, na medida do possível, manter uma atmosfera boa, alegre, energizante e de liberdade (esta última, tenho que dizer, é o que eu mais gosto em mim). Além disso, tento melhorar sempre: gosto de moda e de maquiagem, corro e tenho uma alimentação relativamente saudável.

Aí vc me pergunta: por que esse texto neste blog? Bom, é um desabafo. E para falar que conteúdo é importante (mais importante, até) e para te convencer que todas essas bobagens de filmes, livros e músicas te fazem uma pessoa melhor, mais interessante. Além disso, é muito importante se esforçar ao máximo para ser simpática, coerente e manter uma atmosfera leve ao seu redor (ninguém gosta de gente que emana aquela energia negativa). Sou prova absoluta de que tudo isso dá certo.

Se você, como eu, não passou na fila da beleza várias vezes e também ainda não começou a se dedicar a “ser mais interessante”, nunca é tarde. Comece simples, devagar. Como, por exemplo, pelo cinema. Fiz uma seleção de 4 filmes lindos, que podem ajudá-la a gostar de filmes.

Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s)

Por quê? É um marco do cinema, das histórias românticas que eu particularmente adoro. É histórico e é lindo! Fala do alpinismo social e de prostuição de forma simples e incrivelmente leve. Tem que ser visto por qualquer mulher. (Veja aqui o trailer)

Dançando na Chuva

Por quê? Esse filme é uma ode ao cinema e aborda, de forma leve, o período em que o cinema passou de mudo para falado. É necessário! (Veja aqui a cena mais famosa do filme)

O fabuloso destino de Amelie Poulain

Por quê? É um filme que vai além do filme. Brinca com todos os sentidos, enche os olhos, os ouvidos… Tem momentos que parece que você sente o cheiro, o sabor e o tato das daquilo que acontece no filme. É lindo, lindo… (Veja aqui o trailer)

Simplesmente Amor

Por quê? Porque ele, simplesmente, alterou a concepção do que era comédia romântica. São 8 pequenas histórias românticas, uma diferente da outra, que acontecem no decorrer do filme e que são simplesmente encantadoras. Além disso, trabalha com tamanhas frustrações… Fico até com falta de ar de lembrar de algumas cenas… (Veja aqui o trailer)

A superficialidade do “A Rede Social”

“A Rede Social” tinha tudo para ser um excelente filme: história relativamente cativante, boa direção e, principalmente, discussões extremamente pertinentes no mundo de hoje. Contudo, só posso definí-lo como superficial ou, melhor ainda, filme Sessão da Tarde. Fincher, que fez filmes como os excelentes Clube da Luta e Seven, teve uma preocupação tão grande em transformar a história boba de Zuckerberg em um thriller à lá Seven, que deixou de lado as discussões importantes que rondam o filme. Tudo é relatado apenas superficialmente.

A principal discussão deixada de lado, e uma das mais relevantes da internet, é sobre o que é realmente uma ideia original.  O filme poderia discutir até que ponto o uso de uma ideia anterir como referência é ferir propriedade intelectual. Uma outra que o filme deveria abordar, mas fica só na superficialidade, é a utilidade e relevância das redes sociais. Será que ela pode ser mais do que uma Ti Ti Ti virtual? Ela pode ser de fato uma extensão do mundo real? A última chance que eu vi veio quando o criador do Napster entrou na jogada: o que é verdade na mídia e o que é invenção. No diálogo, Zuckerberg diz a Eduardo: “se eu li no jornal que você é torturador de animais, porque devemos acreditar que Sean Parker é de fato drogado e abusa de menores?”. Discussões tremendas, mas que foram deixadas de lado em prol de um filme com mais ação – provavelmente para atrair mais espectadores. Não foi à toa que não reconheci em A Rede Social um filme de David Fincher, um diretor que sempre apresentou discussões sociais.

Outra coisa que me intriga é que a história não pode ser definida como narrativa de fato. Identifico um padrão nas boas histórias: a mudança do estado inicial da personagem ou sociedade tratada. Inclusive, segundo Barros, filósofo semiótico, a narratividade é entendida como “uma transformação de estado, operada pelo fazer transformador de um sujeito que age sobre o mundo em busca de determinados valores investidos no objeto” (Barros, Sintaxe narrativa, 1995:85). No caso de “A Rede Social”, Zuckerberg não é transformado pela história e não tem um objetivo com o aquilo que ele está fazendo. No filme, ele apenas executa uma ideia e é processado por isso.

Por fim, os diálogos são bons. São rápidos e inteligentes e, por isso, nos entretém. Mas, para mim, é apenas isso que o filme propõe e, portanto, classifico-o como fraco. Não merece o destaque que está tendo, muito menos estar entre os melhores filmes do ano.

O auge de Portman; o encontro de Aronofsky

Fui ver o Cisne Negro, do diretor Darren Aronofsky. Como gosto muito de cinema, sempre procuro saber um pouco sobre os filmes anteriores dos diretores. Mas, desta vez, fui ao cinema sem ter ideia quem era o diretor do filme. Estava indo para ver a tão falada atuação de Natalie Portman, atriz que me chamou atenção em Closer.

Quando cheguei ao cinema, percebi que Aronofsky era o diretor do filme. A quem admiro, por ter feito Réquiem para um Sonho (2000), um filmaço sobre as crises juvenis e o envolvimento com drogas; e Pi (1998), que é excelente, mas dificílimo pela temática (a paranoia de um matemático) e pela montagem.

Lembrando desses dois filmes, não foi difícil ligar a temática de Cisne Negro ao diretor – que sempre achou na loucura suas melhores histórias. A edição e montagem, afinal, é uma mistura dos dois. Há momentos de loucura, de cortes bagunçados e secos, de preto e branco. Aliás, é interessante perceber a importância da cor no trabalho de Aronofsky. O Pi, por exemplo, a ausência de cor incomoda a ponto de te fazer realmente entrar na paranóia do personagem. Em Réquiem, o uso de iluminação escura e saturada e a alta granulação do filme faz parte da história. Em Cisne Negro, Aronofsky optou pela granulação novamente, pela iluminação escura e pela quase-não cor – o que casou perfeitamente com a temática braco x negro do filme.

Sabendo da filmografia, fica fácil entender porque o filme é tão bom: ele é o encontro perfeito entre tudo que o diretor gosta de filmar. Aronofsky começa com o mundo do balé, cenas belas, filmadas ao estilo dele, que vão se intensificando a medida que a história avança. Intensifica-se da doçura a loucura em um ritmo frenético, que só é superável pelo Réquiem. E o trabalho que ele fez com Natalie Portman foi incrível, ao fazê-la crescer instantaneamente ao longo de alguns minutos. Mal nos recordamos na chatissima personagem gerente de uma loja de brinquedos, muito menos da sem sal princesa do Star Wars. E achei que agora, ela está infinitamente melhor do que em Closer.

Outro detalhe bacana é a música. Aronofsky sempre gosta de colocar música clássica nos filmes e, com a temática balé, a inserção da trilha sonora do espetáculo Lago do Cisne ficou espetacular.

Não se pode deixar de comentar que Cisne Negro é lotado (LOTADO) de clichês. Usa temáticas batidas: sexo, drogas, competição, paranóia e homossexualismo. A personagem sexy, Lily (interpretada por aquela atriz que faz a menina burrinha do That 70’s Show), tem uma tatuagem de asas negras, está sempre de preto e super maquiada. Contudo, mesmo assim, o filme acaba sendo brilhante, mostrando que o diretor se encontrou de vez. Vale a pena conferir: é um show de direção e montagem!

Obs.: Aronofsky parece ter influenciado uma gama de diretores que, à época, piraram com essa coisa de filmes escuros, filmagens tremidas que quase causam náuseas e temáticas paranóicas (aka Irreversível, 21 gramas, Mentes Brilhantes, entre outros). E certeza que Aronofsky devorou Trainspotting (1996), a obra-prima de David Boyle, que por coencidência, tem um filme cocorrendo ao Oscar deste ano (127 horas).

Veja os trailers de Cisne Negro, Réquiem para um Sonho e Pi.

Invictus

Que o Clint Eatswood é um gênio sabemos desde que ele começou a se aventurar como diretor. Ícones cinematográficos não faltam: A Conquista da Honra, Cartas da Iwo Jima, Mystic River, Million Dollar Baby… Adoro quase tudo que ele dirige. Só que Invictus, o filme que entra em cartaz na sexta-feira (29), foi além e superou qualquer outra coisa que ele já fez. Não só porque fala da história tão singular da África do Sul e de Nelson Mandela, mas também porque mostra a importância do esporte para a união de um país.

O filme, basicamente, conta a história da África do Sul pós-Apartheid, um regime segregacionista racial, onde a minoria branca dominava o país. Conta a ascensão de Nelson Mandela, o Madiba, para os negros, ao poder e o desafio de construir uma nação forte e unida depois de tantos anos de conflitos e ódio. Com pensamentos únicos e a visão de unir a África do Sul, Mandela enxerga no rugby, o esporte preferido dos brancos, um meio para concretizar o sonho de tantos anos na prisão. (Para quem não sabe, a África do Sul tem um dos melhores times de rugby do mundo, o Springbok, que durante o Apartheid só tinha jogadores brancos). O filme grita: “não tem como não amar a África do Sul, não tem como não amar e ovacionar Nelson Mandela”. Só de pensar, me arrepio!

Uma das genialidades do primeiro presidente negro da África do Sul foi a escolha do esporte paixão nacional como arma de combate à divisão racial. Foi ver que, com incentivo, todos poderiam se unir e torcer por uma única coisa – mesmo que não seja algo tão sério assim, como rugby.

Enquanto via as cenas dos estádios lotados não pude deixar de comparar o rugby sul-africano com o futebol brasileiro. Eu não sou grande fã do esporte, mas reconheço a característica maravilhosa: une pessoas, de diferentes classes sociais, cores e raças, tanto nos estádios como nas peladas por aí. Em qualquer parte do país, dois pares de Havaianas e uma bola fazem mais sucesso que qualquer outra coisa e aproximam mais pessoas que qualquer meio de comunicação. Aqui, o futebol é língua, é paixão e história, é lição e aprendizado. Por isso, é tão importante que se invista nele; por isso, deve ser considerado assunto sério e colocado na pauta importante das agendas dos governantes. O esporte é tão importante quanto qualquer outro ministério do país, só que muito mais divertido!

Ah, o filme é imperdível. Morgan Freeman, que interpreta o Mandela, dá show e deve ser indicado para o Oscar deste ano. Aqui embaixo, ao invés do trailer do filme – como de costume – vou colocar o vídeo de Mandela chamando a todos para ir para a Copa de 2010. Também é de arrepiar!

PS: Quem gosta do assunto não pode deixar de ler o livro que inspirou o filme, Conquistando o Inimigo; o Desonra, do mestre sul-africano Coetzee; e o Clube do Bang-Bang, sobre fotojornalismo no Apartheid!

Julie & Julia

Apaixonados por cozinhar e por comer, assistam Julie & Julia. Sim, isso é uma ordem se um dos assuntos em pauta na sua vida é comida. Se não, assista também, porque só então você vai conseguir entender como e porque a gastronomia exerce tanto fascínio nas pessoas.

Confesso que não esperava muito, porque de fato o roteiro não é tão genial. Historica pequetitica mesmo, claramente inspirada em As Horas – já dá para perceber no trailer. Uma jovem de quase trinta, casada, perdida, afundada em trabalho estúpido e em uma vida medíocre, a Julie Powell, tem vontade de mudar. Então, vem a grande ideia: porque não inspirar-se em um livro famoso, no caso de receitas da Julia Child (que eu particularmente não conheço), para ter alguma motivação nessa vidinha estúpida que eu não agüento mais? A grande roteirista, então, pensou: porque não copiar As Horas e contar também a história da mulher que escreveu o livro simultaneamente? Duas ideias tão originais…

Entretanto, dê um voto de confiança como eu e vá ao cinema. Você vai perceber que vale a pena. O motivo: Meryl Streep, que faz a Julia Child – apresentadora de TV e co-autora do célebre livro “Mastering the Art of French Cooking”.  Gloriosa, maravilhosa, divertida, mutante! Caro leitor, essa atriz é mesmo uma das melhores dos nossos tempos e justifica todas as indicações ao Oscar que teve. Ela salva qualquer filme, qualquer história medíocre. É o máximo vê-la interpretando Julia em Paris, aprendendo a cozinhar na magnífica Le Cordon Bleu, fazendo biquinho para aprender francês! Não que a outra atriz, Amy Adam que interpreta a Julie Powell, seja ruim, mas a Meryl Streep está tão boa que apaga todo o elenco: só existe ela e ponto. É simplesmente fenomenal!

E tem outros detalhes também, o filme mostra a paixão do diretor pelo antigo e por Paris. Na época de Julia Child, em torno de 1950, até a luz é mais bonita. Já Julie Powell vive no Queens, em uma Nova York escura, barulhenta e fedida. Também aborda bem de leve a evolução da mulher no Estados Unidos, mas tão de leve que quase nem dá para perceber – afinal o culto ao passado é tão grande que aprece que Julia Child era mais livre, independente e feliz que a Julie Powell em 2002.

A história é baseada em fatos reais, descritos no livro de Julie Powell, e dirigido por Nora Ephron, de Sintonia do Amor. É de mulherzinha, sim. A história é fraquinha, sim. Mas vale a pena! É divertidíssimo!

O filme estréia amanhã em todo o Brasil. Fique ligado na programação da sua cidade.