(500) dias com ela

Sabe que eu simplesmente adorei esse filme?  Fazia tempo que eu não via na tela algo tão sutil, acho que o último foi “Juno“. Eu gosto de histórias assim: leves, divertidos e nada óbvios. E “500 dias com ela”  te pega de surpresa e foge totalmente do padrão de comédias românticas hollywoodianas, bobas e chatas.

No começo, a história parece igual e você até tem certeza do que vai ver: “boy meets girl”, se apaixonam perdidamente, vivem uma história de romance, brigam e, no final, eles acabam juntos. Com o desenrolar,  percebe-se que, desta vez, não é isso que vai acontecer e os acontecimentos superam expectativas.

O personagem principal sonhador e apaixonado é um homem, Tom (Joseph Gordon-Levitt), que se apaixona perdidamente por Summer (Zooey Deschanel). Ela, por sua vez, não quer um relacionamento sério e não acredita no amor. A partir daí, os dois desenvolvem uma relação comum, com cenas típicas de um romance da vida real – as risadas, as brigas, o desinteresse, as expectativas… Aí vem o final que coloca o “500 Dias com Ela” nas prateleiras de filmes pé-no-chão, ao lado de “Closer” e “Alta Fidelidade” (ai, que vontade de contar).

Então, você vai falar: mas qual é a graça de ir ao cinema assistir a um filme que conta a história de um romance comum? A graça está nos diálogos, no desenrolar na história e na montagem, que é extraordinária. O diretor Marc Webb, experiente em direção de clipes muscais, colocou um narrador em segunda pessoa que conta a história à “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, diz não só o que está acontecendo, mas também o que se passa na cabeça dos personagens; fez a edição de forma não cronológica e fica indo e voltando no tempo; e filmou cortes fabulosos, que remetem a tantos outros filmes importantes para a história cinematográfica! Sem contar que a trilha sonora é fantástica: tem Regina Spektor de monte, Carla Bruni, Feist, The Smiths e um monte de coisas legais. Vale a pena!

Onde ver:  Cinemas em São Paulo
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Veja: Bastardos Inglórios

ingloriousbastards_1Já vi quase os filmes de Tarantino, só não o My Best Friend’s Birthday (1987), e posso afirmar que Bastardos Inglórios não é só um excelente filme, mas também um dos melhores dirigidos por ele. Chego a arriscar: pode ser até melhor de Pulp Fiction (1994) – para ter certeza eu precisaria ver mais uma porção de vezes. Os motivos: o tema, o tempo, o espaço, o roteiro (diálogos e ironia) e a atuação dos atores.

Bastardos Inglórios se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Só que, ao invés de optar pelo óbvio e filmar na Alemanha, Polônia, Itália ou até mesmo Estados Unidos, o diretor escolheu a França para protagonizar a trama.

A França, em 1941, já era ocupada pelos alemães há um ano. Ou seja, uma das maiores potências mundiais já havia caído diante do poder militar do Terceiro Reich e isso significou o fim a hegemonia europeia do mundo. Aliás, até hoje as nações europeias, apesar de muito importantes para a ordem mundial, não detém o poder que tiveram no passado. Até mesmo porque são poucos os países que tem poder político e econômico fora dos grandes blocos (G8, G20, Mercosul, União Europeia) – mesmo que estes possam ser meras ilustrações.

Em Bastardos Inglórios, a formação de alianças internacionais também é tema central. O grupo dos Bastardos (resistência mundial) é formado por soldados judeus, um austríacos, um alemão e vários americanos, comandados pelo tenente estadunidense, Aldo Rayne, o Apache (Brad Pitt) – o que me leva a imediatamente relacionar o comandante dos Bastardos com o papel dos Estados Unidos na Segunda Guerra e, magicamente, o entretenimento puro vira coisa de intelectual chato.

Se pensarmos assim, consigo relacionar todos os personagens a países e grupos que tiveram importante papel durante o guerra. O primeiro personagem do filme, Pierre La Padite (Denis Menochet), pode ser o representante da França rendida. Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), a franco-judia, e Michel podem ser as resistências francesa e africana contra o regime alemão. O general espertão e irônico Hans Landa (Christoph Waltz) é a própria Alemanha e assim por diante…ingloriousbastards_9

Dividido em capítulos, o filme faz inúmeras referências ao cinema e aos “queridinhos” do diretor. É possível ver claras citações a movimentos cinematográficos, diretores e atores, como o faroeste americano (nada mais claro que a música), John Ford (enquadramento), Nouvelle Vague (estética), Truffaut (Shosanna parece retirada de um filme dele e colada aqui), Lars Von Trier (incêndio), Guy Ritchie (letreiros) e, com certeza muitas outras que vou perceber quando ver de novo.

O capítulo 1 é a apresentação do General Hans Landa. O ator que o interpreta, Christoph Waltz, está particularmente excepcional no filme. A genialidade está na excelente interpretação dos diálogos, com todo o cuidado nas entonações de ironia. Por exemplo, a conversa que apresenta o filme é genial – Landa compara alemães a águias e judeus a ratos e explica porque, na concepção dele, a comparação com ratos não é depreciativa.

ingloriousbastards_8No capítulo 2 é a vez dos Bastardos – que representa toda a agressividade dos filmes de Tarantino. São eles que matam com tiros ou pauladas de taco de beisebol, tiram couro cabeludo e marcam os soldados judeus. Brad Pitt aparece aqui, como o tenente que comanda o grupo. Ele está bom também no filme, bem caricato (o que me lembrou o cigano do Snatch – Porcos e Diamantes, do Guy Ritchie). O três, de Shosanna e o resto, o desenrolar da história.

O filme acaba em 1944, justamente o ano do Dia D, que é o marco da derrota do líder do regime nazista. Sem surpresas, o final é o mesmo do acontecimento histórico equivalente – a derrota do regime nazista.

Agora, tirando todas as minhas relações pseudo-intelectuais, não vá ao cinema assistir a Bastardos Inglórios achando que o filme é para refletir e que Tarantino entrou para o movimento do cinema iraniano. Muito pelo contrário, ele é divertido, inteligente, irônico – totalmente entretenimento, mas com bastante teor e crítica.

Veja abaixo o trailer.

Serviço

Salas em São Paulo

Slumdog Milionaire

Cinema é muito mais que entretenimento, ao menos na minha concepção. É uma leitura dinâmica, com elementos visuais, sonoros e corporais, dos tempos que se insere. Filmes produzidos no passado lêem o passado, mesmo sob a temática do futuro; filmes do presente lêem o presente, mesmo que fale do passado. Até mesmo porque, aquilo contado na tela é a visão de uma pessoa (diretor, escritor, roteirista) sobre determinado assunto, inserida no contexto histórico que vive. Aliás, qualquer forma de expressão e arte funciona assim, a fotografia, a literatura, a pintura…

O novo filme de Danny Boyle, “Quem quer ser um milionário? (Slumdog Milionaire, no infinitamente melhor título original)”, traduz o que vivemos em 2009. A luta de classes, o desenvolvimento e verticalização relâmpago das cidades, a decadência da instituição da família, a luta religiosa e a americanização da cultura, em um dos países emergentes economicamente.  É também sobre a Índia, a sua história, a sua rica cultura e sobre a idéia que influencia a formação social do país (Está escrito!). Mas, aos olhos do espectador desatento, as críticas a sociedade moderna podem não ser notadas. São só o pano de fundo para a história de um menino indiano, pobre e órfão que faz qualquer coisa pelo amor da amiga de infância, inclusive participar de um programa ordinário de perguntas e respostas.

Para perceber é preciso estar atento aos detalhes que, rapidamente, passam na tela e pela fala dos personagens. A Coca-Cola oferecida, o genocídio pela religião, a falta de saneamento básico, a briga dos irmãos pela sobrevivência, a mudança do cenário em pouco tempo, a alteração da língua, a nacionalidade do chefão… São muitos os detalhes que mostram a loucura em que estamos e que apontam para algo maior do que aquilo que está no primeiro plano da tela.

O mais estranho é que, mesmo com todo suspense, pobreza, morte e tragédias, o filme rende ótimas risadas. Na saída, o sentimento é de descontração – o oposto do “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, que todos insistem em colocar no mesmo saco. Na minha restrita opinião, o brasileiro não chega nem aos pés do inglês. Particularmente, prefiro a sutileza e a inteligência de Danny Boyle à grosseria de Meirelles! Influências de linguagem e forma existem, sem a menor dúvida – principalmente da parte de Meirelles, pois a linguagem de Boyle sempre foi videoclipe (quem não lembra de “Trainspotting” e de “A Praia”?). Entretanto, acho o Slumdog mais parecido ao “A Vila”, do indiano M. Night Shyamalan, do que ao brasileiro. Enfim, isso é só palpitação minha. Fato mesmo são as ótimas críticas e os inúmeros prêmios ao Slumdog!