Kassab e as vias rápidas

Congestionamento em SP

Li hoje na Folha:

“Vias expressas em formato de anéis ou de eixos viários que cortam São Paulo, além de dois corredores paralelos à marginal Tietê, são as apostas do prefeito Gilberto Kassab (DEM) para reduzir congestionamentos e, com isso, melhorar a qualidade do ar.”

Essa política DEM/Tucana de incentivo ao transporte individual em São Paulo está acabando de vez com a cidade. A solução, como bem aponta Ailton Brasiliense, presidente da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos) e ex-diretor da CET na gestão de Luiza Erundina (1989-92) no texto que rebate a ideia de nosso prefeito, publicado no mesmo jornal, não é fazer os carros andarem mais rápido e sim as pessoas pelo incentivo ao transporte público.

O que vejo de fato é o seguinte: as novas vias, a priori, melhorarão a fluidez do trânsito de SP, distribuindo para outros lugares os carros que se concentram em duas ou três vias principais. Contudo, a quantidade de carros nas ruas continuará a aumentar, porque a melhora a fluidez do trânsito funciona como um incentivo à compra e ao uso do carro; e porque o governo Federal (hj PTista) continuará alimentando o sonho de consumo brasileiro (carro, casa, eletrônicos). Com o passar dos anos (no máximo uns cinco), o trânsito em SP passará de terrível para tenebroso, pois  os carros serão distribuídos para todos os lados.

O projeto de criação de vias rápidas não é novo. Como bem aponta o jornalista que escreveu a matéria impressa, remete aos anos de 1935 e 1970. O que essas duas datas tem em comum? No Brasil de 1930, Getúlio chegava pela primeira vez ao poder, após um golpe militar. Em 1934, Vargas é eleito presidente. Em 1970, já nos encontrávamos na Ditadura Militar. Ambos os governos são, prioritariamente, a favor da “modernização” do Brasil. Modernização, à época, que tinha como um dos símbolos o automóvel (para se ter uma ideia, o primeiro projeto do Fusca foi em 1931, alcançando a maior popularidade em 1973).

O pensamento em investir no transporte individual de 40 anos atrás caminha na direção contrária do mundo atual. Chega inclusive a ir na contra-mão da real solução do problema. Principais especialistas em trânsito acreditam que para diminuir congestionamentos e poluição é preciso priorizar o transporte coletivo – principalmente aqueles que utilizam formas mais sustentáveis de abastecimento. Enquanto isso não acontecer em São Paulo, continuaremos a ver os índices subirem e a tolerância diminuir. Kassab, o mundo mudou! Vamos mudar SP também?

Primeiras (e últimas) palavras sobre as chuvas fortes no Sudeste Brasileiro

Chuvas e Mata Atlântica

No blog do excelente jornalista Flavio Gomes:

“Ainda sobre tragédias, é bom que se diga que a Mata Atlântica sempre foi muito sensível a chuvas fortes, a constituição das montanhas é propícia ao encharcamento e deslizamentos violentos de pedras e árvores, além de terra em quantidades fenomenais. Um desastre ainda maior que o da semana passada aconteceu em 1967 na Serra das Araras, com o número de mortes estimado em mais de 1.700, conforme o relato estarrecedor deste site aqui.

Fui, portanto, pesquisar um pouco sobre a tal Mata Atlântica, que deveria estar aqui ao invés de nossas ruas pavimentadas e edifícios atuais. Para minha não surpresa – que que me lembro bem das aulas de Geografia do colégio – um dos fatores essenciais para a construção da vida neste bioma é a água. Essa mesma água que está destruindo as encostas desmatadas e peladas que deveriam ter, ao invés de casas irregulares, árvores de copas altas e folhagem densa (a fim de proporcionar a correta umidade para garantir a vida neste ambiente).

Vocês pensam: mas as alterações de solo e a influência humana afetam diretamente o clima da região, fazendo com que, em alguns lugares, haja a desertificação por falta de chuvas. Pois eu te respondo: as chuvas, que se criam em nosso ecossistema, são causadas pelas montanhas que barram a passagem das nuvens carregadas. É por isso que, deste lado, o solo é úmido e do outro lado temos as grandes secas. E montanha não mudou e não mudará de lugar, a não ser no caso de Maomé.

Conscientização é preciso

Li no UOL:

“Com esse dinheiro, eu só consegui achar uma casa aqui. Também, como eu não conheço ninguém e estou acostumada com esse bairro, voltei para cá. Mas aconteceu de novo”, lamenta. (moradora que perdeu a casa 2 vezes em deslizamentos causados pelas chuvas em Nova Friburgo).

Acho que não preciso escrever mais nada, né?

O inferno em São Paulo

No coração de São Paulo existe um lugar que eu nunca queria ter passado. Não tenho dúvidas de que o que vi foi o mais parecido com a visão de inferno, tanto bíblico como o de Dante. Seres humanos, que naquela situação pareciam quase pessoas, se aglomeravam aos montes em dois quarteirões de uma paralela a Rio Branco. Não consegui contar, não conseguir falar… Espantei-me com tamanha degradação que o craque causou naquelas pessoas.

Você sabia que existia uma rua dessas em São Paulo? Você sabe como é que é, quer dizer, já viu como é? Se não, se você só ouviu falar, você não sabe o que é ver a degradação humana dessa forma. Não encorajo ninguém a tentar ver, a cena é inesquecível. Entretanto, acho importante que haja a indignação, que pessoas queiram mudar aquilo ali, que a população cobre do governo uma atitude de mudança, cobre o combate severo ao tráfico de drogas. Para que isso aconteça, é preciso que se fale do assunto, que se mostre.

Não tenho coragem de voltar lá para fotografar, aliás, não tenho coragem de voltar lá e ponto. Queria ter esse espírito aventureiro… Procurei no Google por imagens de lá, mas nenhuma consegue traduzir o que de fato é a Cracolândia. Posso tentar, com essas palavras, descrever o que vi em um minuto naquele inferno.

Acredito que havia mais de trezentas pessoas que, espremidas, espremiam os carros que desviavam da avenida fechada por causa da virada cultural. Seminuas, nuas, sujas, agarrando-se pelos braços, estiradas no chão, meninas, meninos, mulheres e homens gritavam e fumavam o cachimbo com craque em plena luz do dia, na hora do almoço de domingo.

Atravessou a rua uma menina, deveria ter por volta dos 13 anos. A blusa estava rasgada, as costas estavam imundas, os cabelos estavam curtos pela sujeira e pelos nós, estava de bermuda. Um homem, que aparentava seus 40 anos, a pegou pelo braço e jogou-a no chão. Ela levantou e continuou andando, como se nada tivesse acontecido.

Perguntei: Meu Deus, o que é isso? Logo, me responderam: É o inferno! Lembrou-me aquela cena do limbo do filme estrelado por Robin Willians, “Um Amor Além da Vida” (a cena, você vê no vídeo acima)

Foram poucos minutos de contato, capazes de me fazer abominar todo e qualquer tipo de droga, de me fazer enxergar o quanto esses alucinógenos – químicos, naturais, legais ou proibidos – transformam pessoas comuns, boas, em animais.

Virando à direita, há dois quarteirões dali, postos policiais com viaturas que nada fazem. Parecem que não ligam para o que está acontecendo. É desencorajador e prova irrefutável de que aquilo ali não vai acabar tão cedo.

Você olha São Paulo?

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Declaro oficialmente que fiz as pazes com a fotografia, depois de quase 4 anos sem vontade de pegar numa câmera. Percebi que o peso e cobranças do profissionalismo me abandonaram e o trauma dos mais de três anos de profissão foi completamente superado. Voltei a “fotografar com os olhos” e a “pensar em imagens”. Fiquei muito feliz.

Para os que me conhecem sabem o quanto eu gosto de olhar: pessoas, casas, prédios, luzes, formas, cores… Meu olho não para, é até irritante para quem conversa comigo. São Paulo tem muito para olhar, mas poucos realmente a notam. Tanta correria, tanto trabalho. A cidade está aí, todos os dias para ser olhada e ninguém ao menos olha para o céu.

Semana passada dirigia sozinha pelas ruas de Moema no final da tarde. Olhei para cima e me espantei: o céu de fogo. Quase ninguém reparou e ninguém comentou. Foi aí que veio o desespero de fotografar. Parei em muitas esquinas para tentar fotografar, na última consegui esta foto. Não é boa no enquadramento, nem ao menos na qualidade (foi tirada com celular), mas impressiona pelas cores. Deveria ter estacionado e saído do carro, mas estava atrasada, como sempre!

O importante é que nesse dia percebi a falta que me faz fotografar. Mas tem que ser assim, descompromissado, despretensioso, só um pequeno prazer de guardar para sempre cenas fugazes de um dia qualquer.